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Tema: Parto Prematuro

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Viva Mais Viva Melhor – Um dos maiores riscos de uma gestação é ter o bebê antes do tempo esperado. A gravidez normal é aquela que dura entre 37 e 42 semanas, mas estima-se que 12% das mulheres entram em trabalho de parto mais cedo e isso pode acontecer devido às infecções, ao sangramento, aumento de contrações ou até mesmo pelo estresse psicológico ou físico da mãe. Os fatores que podem ajudar no parto prematuro são muitos. Mães que fumam, as que têm anemia, as que fizeram cirurgias no colo do útero ou também pelo curto espaço de tempo entre uma gestação e outra. O risco de haver uma complicação durante o parto é alto, principalmente pelo fato de o bebê ainda não ter todos os órgãos formados. Para saber um pouco mais sobre o assunto, quem conversa conosco hoje é o doutor Manoel Sarno, ginecologista e especialista em medicina fetal.

Doutor, primeiramente, explica para os nossos ouvintes, quando é que um bebê é considerado prematuro e o que faz ele nascer prematuramente?
Dr. Manoel Sarno – Bom, Olga. Toda a gestação deveria ir até o final no termo da gravidez que a gente chama, que seria entre 37 e 42 semanas como você mesmo tinha relatado anteriormente. Quando a gestação ela é interrompida entre 20 semanas e 36 semanas e 6 dias, antes de completar a 37ª semana, a gente considera que este é um parto prematuro. Abaixo de 20 semanas, até 19 semanas e 6 dias nós não consideramos parto, mas sim abortamento. Então toda a gestação abaixo de 37 semanas ela é considerada uma gestação prematura, um parto prematuro, se ela evoluir para um parto. É um conceito diferente, por exemplo, de baixo peso ao nascer. Um bebê pode nascer com 36 semanas e ter um peso adequado, mas ele pode nascer com 38 semanas e nascer com baixo peso, com 2 kg ou 2,2kg. Então estes são conceitos que muitas vezes as pessoas confundem, mas são conceitos bem diferentes.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, quais são as principais causas do trabalho de parto prematuro?
Dr. Manoel Sarno – Olga, é muito difícil a gente ter causa para trabalho de parto prematuro. O que a gente considera é que existem fatores de risco, ou seja, na presença daquele fator existe um risco de parto prematuro. O principal fator é o histórico em gravidezes anteriores de partos prematuros. Então aquela gestante que nos relata que em uma gravidez anterior ela teve um bebê com 36, 35 ou 34 semanas essa é uma paciente que tem um risco aumentado numa próxima gravidez. Mas, como eu falei anteriormente, não existe uma causa, então ela tem um fator de risco, mas ela mesmo assim pode numa próxima vez ter um bebê com 38 ou 39 semanas. Se ela tem alguma alteração do colo do útero, o colo do útero sustenta a gestação, muitas mulheres têm um colo encurtado e isso também é um fator de risco para partos prematuros. Se ela faz um trabalho físico muito extenuante, são os trabalhadores braçais, se ela tem o tabagismo, o fumo, a bebida, o estresse, algumas infecções, inclusive infecções de dente, a periodontite pode também ser um fator de risco para partos prematuros. Infecção urinária, romper bolsa, bolsa rota, perder o líquido, são fatores de risco para o parto prematuro. O líquido aumentar demais, um polidrâmnio pode desencadear também um parto prematuro. São inúmeras possibilidades de fatores de risco que podem levar a uma gravidez ser interrompida antes do momento adequado.

Viva Mais Viva Melhor – É correto afirmar que mulheres com histórico familiar de partos prematuros têm mais predisposição a ter o problema?
Dr. Manoel Sarno – O fator de risco principal para o parto prematuro é a própria mulher ter uma gravidez anterior que encerrou prematuramente. Mas a história familiar também, se a irmã dela teve um parto prematuro, se a mãe dela teve um parto prematuro, apesar de ser um risco menor do que ela própria, mas ainda assim aumenta, não muito, mas aumenta um pouco o risco de parto prematuro.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, quais são os sintomas de parto prematuro?
Dr. Manoel Sarno – Olha só, toda gestante deve observar que está acontecendo a seguinte situação, o útero ele não deve ficar endurecido. A paciente palpando o útero ela não deve sentir nenhum tipo de rigidez no útero, essa rigidez no útero ela é um indício de contração e essas contrações podem ser indolores ou elas podem ser dolorosas. As contrações dolorosas são contrações mais preocupantes, porque é sinal de que esta contração é mais intensa. Então se a gestante está sentindo que a barriga está endurecendo e não tem dor associada, isso pode ser um sinal de que ela está entrando em trabalho de parto ou ela pode ter contrações preparatórias para o parto. É muito comum com 34 a 36 semanas terem algumas contrações destas que a gente chama de contrações de Braxton-Hicks, que é uma contração preparatória para o colo do útero e são contrações indolores. Esta contração não tem um risco aumentado para desenvolver o parto prematuro, mas ela tem que ficar em observação. Tem que ficar observando se estas contrações vão aumentar a intensidade e aí ela observa que a barriga fica mais dura. Essa contração ela vem com dor e muitas vezes ela vem com ritmo mais intenso, ou seja, uma contração de Braxton-Hicks em que as vezes você tem uma a cada 30 minutos ou uma a cada hora, a contração de trabalho de parto é aquela contração que vem a cada 3 minutos ou a cada 5 minutos, por exemplo.

Viva Mais Viva Melhor – Existem exames que detectam que algo não está bem na gestação desta mulher?
Dr. Manoel Sarno – Um exame que nós fazemos para tentar identificar as gestantes de alto risco para parto prematuro é o exame do colo do útero, que é feito pela ultrassonografia assim que ela vai fazer o exame morfológico do segundo trimestre. Este é um exame para a gente fazer em todas as gestantes. Toda a gestante deveria ser avaliada com o exame de ultrassonografia transvaginal para medir o colo, quanto mais longo o colo menor a probabilidade de parto prematuro. O valor normal do colo gira em torno de 2,5 cm, então se ela tem um colo de 3,0 cm, 3,5 cm ou 4,0 cm ela tem um colo adequado e um risco menor de partos prematuros. Esse é o exame mais utilizado. Existem outros exames também como a fibronectina em que a gente colhe um líquido do fundo da vagina e se há a presença da fibronectina ela tem um risco aumentado de parto prematuro.

Viva Mais Viva Melhor – Tem como a mulher se preparar caso o bebê queira nascer antes do tempo? O quê que ela deve fazer se entrar em trabalho de parto prematuramente?
Dr. Manoel Sarno – Primeiro a gente tem que identificar se é realmente um trabalho de parto e aí só o médico pode dizer, porque aí vai ter padrão das contrações, ela vai ter que ter 3 contrações em 10 minutos e tem que ter modificação do colo. Então o exame de toque vaginal ele é realizado para saber se esse colo está sendo modificado. Existe um trabalho de parto prematuro verdadeiro e existe o falso trabalho de parto, o paciente tem contração, mas ela não está em trabalho de parto, as vezes é só um repouso, uma hidratação, avaliar se tem algum fator de risco e resolve. Tratar uma infecção urinária, por exemplo, já conseguiria deter. Se ela entra realmente em trabalho de parto aí o ideal seria internar, fazer uma medicação que pode ser tanto uma medicação por via oral por comprimido ou por via venosa, uma medicação administrada para conseguir segurar essa gestação e fazer uma medicação de corticoide que é intramuscular, uma injeção, para melhorar o amadurecimento do pulmão do bebê. Geralmente este tratamento a gente faz quando o parto prematuro é até 34 semanas. Então desta forma a gente consegue segurar o parto por 48 horas que é o período da ação do corticoide e aí é feito o parto prematuro e em boa parte das vezes a gente não consegue segurar mais do que este período quando o trabalho de parto é um trabalho de parto verdadeiro.

Viva Mais Viva Melhor – É possível que os bebês prematuros terminem o seu desenvolvimento fora do útero com sucesso?
Dr. Manoel Sarno – Sim, é possível. Hoje a gente tem uma tecnologia muito mais avançada do que a 15, 20 anos atrás e hoje você consegue dentro da UTI neonatal resultados muito surpreendentes, bebês com 26, 27 ou 28 semanas sobrevivendo. Acontece que ainda não desenvolvemos um berçário tão bom quanto o útero. Se a gente imaginar uma prematuridade extrema que é abaixo de 32 semanas, cada dia que você ganhe dentro do útero você consegue reduzir entre 2 a 3% a mortalidade neonatal, ou seja, é uma vantagem se a gente consegue segurar as vezes 1 semana ou 2 semanas, você consegue melhorar o resultado mesmo da UTI neonatal. Então é possível segurar e desenvolver um bebê fora do útero, porém ainda dentro do útero é o melhor local, se não tiver jeito é possível fazer este acompanhamento na UTI neonatal depois do nascimento. 

Viva Mais Viva Melhor – A partir de quantas semanas, a exemplo destas 32 semanas que você citou, o bebê pode nascer prematuramente?
Dr. Manoel Sarno – Isso depende muito do berçário que a gente tem disponível dentro do hospital. Então tem alguns lugares em que o berçário tem uma mortalidade maior do que outros. Então tem berçário em que o ponto de corte é de 30 semanas, outros de 26 semanas. Geralmente, acima de 26 semanas nos melhores berçários é que você conseguiria ter uma prematuridade e poderia investir nestes bebês e eles sobreviveram. Há relatos de bebês que sobreviveram até 23 semanas em diante, mas aí a taxa de morte depois do nascimento é uma taxa maior do que o de sobrevida. Eu já tive pacientes com 24 semanas sobrevivendo, e às vezes até sem sequelas, é mais raro, mas pode acontecer. O habitual geralmente, mesmo nas melhores UTIs, é o ponto de corte ser em 26 semanas.

Viva Mais Viva Melhor – Quais são os perigos de um parto prematuro, doutor e quais são os problemas mais comuns depois que o bebê nasce?
Dr. Manoel Sarno – O perigo do parto prematuro é justamente porque o bebê não tem ainda todos os órgãos amadurecidos, ele tem a formação adequada, ele tem o pulmão formado, ele tem o coração formado, rins formados. Porém, muitas vezes esses bebês nascem, mas o pulmão ainda não está preparado para o nascimento. Então existem às vezes desconfortos respiratórios, os bebês precisam ser entubados, dependem da ventilação mecânica, as vezes o coração fica com uma sequelazinha de comunicação interatrial, às vezes precisa fazer alguma correção cirúrgica, o uso do oxigênio prolongado às vezes pode dar problema na retina no olho e ter uma retinopatia por uso do oxigênio, esses bebês podem sofrer alterações no intestino, que a gente chama de enterocolite necrotizante, pode precisar de mais antibióticos, alterações renais como disfunção renal, a bilirrubina pode aumentar, a bilirrubina pode ficar ictéria e precisar fazer banho de luz ou outros tratamentos até com transfusão sanguínea. Ou seja, existem inúmeras complicações que podem advir do parto prematuro e mesmo com a tecnologia hoje avançada a gente deve ao máximo evitar o parto prematuro, é muito melhor que o bebê nasça no tempo certo. Inclusive estes bebês, mesmo os que sobrevivem, eles têm um risco aumentado no futuro de desenvolver hipertensão, diabetes, isso já é reconhecido. Algumas alterações cognitivas de aprendizados também são mais comuns nos bebês que nascem prematuramente do que nos bebês que nascem no tempo certo. A própria amamentação é mais difícil quando o bebê nasce prematuro, o bebê ainda não tem o reflexo ainda de sugar o peito da mãe. Então quando o bebê nasce no tempo certo todas estas questões são resolvidas e em 24 ou 48 horas ele está em casa e a condição é muito melhor.

Viva Mais Viva Melhor – Durante quanto tempo este bebê prematuro precisaria ficar no hospital antes de ir para casa?
Dr. Manoel Sarno – Isso é variável, depende se tem alguma intercorrência, mas mesmo sem nenhuma intercorrência geralmente os pediatras eles aguardam o bebê atingir 2 kg para conseguir ter alta, mesmo que não tenha nenhuma intercorrência mais séria.

Viva Mais Viva Melhor – Quando o bebê prematuro recebe alta ele precisa de cuidados especiais em casa ou tem uma vida normal como outras crianças que nasceram no tempo certo?
Dr. Manoel Sarno – Então, estes bebês eles precisam de mais estímulos. Como eu falei anteriormente, às vezes eles têm dificuldades até para amamentação, desenvolvimento motor dele, ele precisa ser estimulado e às vezes com fisioterapia, com terapia ocupacional e aí o pediatra pode fazer uma avaliação e fazer uma orientação melhor caso a caso. Eventualmente os bebês prematuros precisam de outros especialistas, como o oftalmologista, otorrinolaringologistas, neurologistas pediátricos se existe algum problema específico em algum desenvolvimento dele.

Viva Mais Viva Melhor – Para finalizar, doutor Sarno, existe opções de tratamento, técnicas durante a gestação, para evitar um parto prematuro?
Dr. Manoel Sarno – Durante muito tempo a única prevenção que se fazia era identificar o grupo de risco através da história prévia de parto prematuro e o controle dos fatores de risco como infecções no trato urinário e etc.… para evitar que ela entrasse em trabalho de parto. Entrando para o trabalho de parto faria a medicação para conter esse trabalho de parto durante 48 horas para o corticoide agir. Mas hoje a gente tem uma medicação, que é a progesterona, que ela consegue reduzir em até 45% a prematuridade naqueles casos em que eu tenha um colo menor do que 25 mm ou 2,5 cm, a mesma coisa. Então eu faço o ultrassom transvaginal, identifico os colos menores e ofereço esse tratamento com a progesterona e consigo reduzir em 45% a taxa de prematuridade. Para aquelas mães que têm um colo insuficiente ou incompetente, que é incompetência do istmo-cervical, é possível fazer uma cirurgia chamada cerclagem, em que a gente dá uns pontos no colo do útero e ele mantém a gestação. Uma terceira alternativa é o uso do pessário vaginal. Esse pessário é um dispositivo que a gente coloca no consultório mesmo, um anel de silicone que a gente coloca dentro do colo, quer dizer, ele circundando o colo o colo vai por dentro dele e esse dispositivo também reduz a possibilidade de partos prematuros. Então hoje a gente tem uma condição muito melhor do que há 20 ou 30 anos atrás de prever e prevenir o parto prematuro.

Viva Mais Viva Melhor – Ok. Conversamos com o médico Manoel Sarno, ginecologista e especialista em medicina fetal. Doutor, muito obrigada e até a próxima.