NOSSAS ENTREVISTAS

Tema: Obesidade

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Olga Goulart – Com o aumento do número de obesos a cada dia, a cirurgia de redução de estômago, ou cirurgia bariátrica, tem sido uma aliada importante no tratamento de pessoas que estão com o índice de massa corpórea, o conhecido IMC, acima dos 40. É um procedimento que visa diminuir o tamanho do estômago e reduzir a ingestão de alimento do paciente operado. Hoje quem conversa conosco sobre este assunto é o doutor Marcelo Falcão, especialista em cirurgia bariátrica.

Doutor, como explicar melhor o quê que é a cirurgia bariátrica e quando ela é recomendada?

Dr. Marcelo Falcão – A cirurgia bariátrica ela é um recurso para tratamento da obesidade mórbida. Hoje no Brasil nós temos principalmente duas técnicas aprovadas pelo Conselho Federal de Medicina, a Gastrectomia Vertical, conhecida como Sleeve e a Gastroplastia em Y de ROUX Bypass. Essas duas técnicas visam primeiro reduzir o volume da ingesta pelo paciente e o Bypass na Gastroplastia em Y de Roux que é uma cirurgia mista, ela além de reduzir ela mexe no metabolismo, ela evita que você absorva uma parte do que você comeu, então ela cria um componente restritivo e disabsortivo, a Gastrectomia Vertical apenas o componente restritivo, você diminui o que você come. Basicamente a cirurgia bariátrica tem essas duas funções, com suas variações em outras técnicas que são mais específicas.

Olga Goulart – E como que é a procura por esse procedimento, pela cirurgia de redução do estômago?

Dr. Marcelo Falcão – A procura tem sido cada dia maior. Mais centros tem se formado. Como é sabido por todos, a obesidade é uma pandemia. Em todo o mundo, a obesidade hoje é fator de risco para todas as doenças, em todos os locais é estatística de primeira morbidade e aqui no nosso meio não é diferente, cada dia mais o fator limitante por muitas vezes é o acesso ao plano de saúde que vamos falar mais na frente, mas sempre a procura tem aumentado cada vez mais.

Olga Goulart – Qualquer um, doutor, pode fazer este tipo de cirurgia? Quais são os critérios na hora de avaliar uma pessoa para realizar este tipo de cirurgia?

Dr. Marcelo Falcão – Qualquer um não, Olga. A cirurgia bariátrica é regida pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica em seu consenso publicado em 2006, assim como pelo Conselho Federal de Medicina, então você tem as regras que seguem da Organização Mundial de Saúde baseadas no índice de massa corpórea como você havia falado no começo, o IMC. A indicação para cirurgia bariátrica é para o paciente com o IMC entre 35 e 40, associado a pelo menos duas comorbidades ou doenças associadas a obesidade, como hipertensão, como diabetes, como apneia do sono e esteatose hepática. O fato de ter o índice de massa de 40, que é obesidade mórbida, você já tem uma indicação precisa para a cirurgia. E em linhas gerais é isto, hoje tem a linha de pesquisa dos diabéticos, mas no geral é índice de massa de 35 a 40 e acima de 40, 35 a 40 associado a duas doenças correlacionadas a obesidade.

Olga Goulart – Sabemos que qualquer cirurgia implica um grau, ainda que seja pequeno, de risco, não é? Têm vários cuidados que devem ser tomados antes de uma operação. No caso da bariátrica, é uma cirurgia de um risco maior?

Dr. Marcelo Falcão – Sim. Não é a cirurgia só que é de risco maior, o paciente é de risco maior. A obesidade é uma doença inflamatória crônica, lenta, prolongada, que quando chega no estágio de obesidade grau II, como havia falado de índice de massa de 35 ou obesidade mórbida, este paciente tem outras doenças associadas que agregam risco. Então é um paciente que precisa ser bem preparado num pré-operatório. A cirurgia bariátrica segue segundo os protocolos do nosso consenso da sociedade, existe um pré-operatório muito minucioso, com vários exames, com avaliação multidisciplinar. O cirurgião sozinho ele não capta a obesidade, a obesidade não é uma doença de um único profissional, você tem que fazer uma avaliação com a psicologia, com a nutrição, você tem que fazer uma avaliação com o endocrinologista, por vezes e muitas das vezes é necessário um fisioterapeuta ou cardiologista, então o cuidado pré-operatório é fator primordial para o sucesso da cirurgia e principalmente do pós-cirúrgico.

Olga Goulart – É isso que eu ia falar, não só o pré-operatório, mas o pós-operatório também. Este paciente precisa ser acompanhado depois do procedimento por um período consideravelmente grande. Se não formos pensar nesse controle, o paciente tem que ter um comprometimento muito grande e não deixar de fazer as suas avaliações, esse acompanhamento com quem o operou.

Dr. Marcelo Falcão – Exatamente Olga. É um acompanhamento como dizemos sempre ao paciente, um acompanhamento multidisciplinar. Nós temos por rotina no nosso serviço operar o paciente e nos primeiros 6 meses ele voltar regularmente mensalmente. É verdadeiro que nem todos fazem isso, mas é nossa indicação. A maioria, graças a Deus seguem isso. Isso dá ao paciente uma segurança e para nós, porque a cirurgia bariátrica como uma cirurgia metabólica ela vai trazer alguns percalços, algumas diferenças, alguns déficits que vão ser diagnosticados precocemente nestas avaliações mensais e compensado. E nesses primeiros 6 meses, você viveu uns 30 anos, 40 anos obeso não quer em 1 mês virar um super-homem. Você tem que ter uma latência, um período para um desenvolvimento correto desta mudança no seu organismo. Depois destes 6 meses você vai a cada ano nos próximos 5 anos uma visita anual a esta equipe toda, não só o cirurgião, mas também a toda equipe.

Olga Goulart – Essa mudança, esse monitoramento que é tão necessário quanto uma boa anamnese, um bom controle pré-operatório, é bom que a gente explique, que o senhor pudesse explicar como é que acontece esse processo de emagrecimento, para que as pessoas já tenham uma noção do que vão encarar pela frente após a cirurgia.

Dr. Marcelo Falcão – O processo de emagrecimento ele é a cereja do bolo como nós dizemos sempre. Contudo, ele exige do paciente, não adianta por mais habilidoso, por mais experiente que eu seja fazer uma excelente cirurgia e o paciente boicotar essa cirurgia. O que é isso? O paciente precisa saber que ele vai passar por restrições para ter aquele emagrecimento. É um emagrecimento muitas vezes no primeiro mês muito grande e rápido, notado. Todos lhe reverenciam e depois ele vai estabilizando. Vai estabilizando a perda de peso? Não. Vai estabilizando a distribuição de gordura no corpo. Eu tenho muita relação com os pacientes e digo: 

- Doutor eu perdi 15 quilos no primeiro mês e no outro eu perdi 6. 

- É, mas você perdeu muita roupa.

Principalmente mulher que anda com roupa justa, e as roupas íntimas estão coladas ao corpo, com certeza você diminuiu o número do seu sutiã, da sua calcinha. Por que? Porque a gordura, se você for emagrecendo 12 quilos a cada mês você vai morrer desnutrido. Então você distribui essa gordura e a conformação do seu corpo, a natureza sabidamente reorganiza isso e você tem um emagrecimento mais lento, perdendo gordura, não perdendo músculo, proteína, que não pode perder, tem que perder gordura. E esse emagrecimento lentificado e organizado é o ideal para a gente sempre com esse acompanhamento que foi proposto por profissionais próximos para você repor esses nutrientes que podem vir a faltar a você.

Olga Goulart – Sim, doutor. Você explicou da necessidade deste acompanhamento sobretudo nutricional. É preciso fazer uma reposição de alguns nutrientes, de vitaminas após a realização da cirurgia?

Dr. Marcelo Falcão – Sim. No período de 6 meses basicamente a gente sempre tem uma reposição de vitaminas, uma distribuição e principalmente uma adequação, porque muitos desses pacientes não fazem ingesta de alimentos que tem determinado nutriente. Então é orientado pela equipe multidisciplinar a satisfazer a necessidade daquele nutriente seja por via oral na alimentação, se não for possível via suplementação. Agora a suplementação é para sempre? Não, isso não é verdadeiro. Isso vai depender principalmente da sua ingesta alimentar pós-cirurgia bariátrica pelo seu modo de vida. Agora sim, no primeiro ano principalmente existe, que é aquilo que eu havia falado, a distribuição ou acomodação do corpo e você precisa fazer essas reposições pontuais. Além da necessidade de uma vigilância mais de perto, não é?

Olga Goulart – É uma verdadeira reeducação alimentar depois você precisa continuar educado para tal. Para comer bem, para suprir o seu organismo daquelas vitaminas e nutrientes que são necessários para um bom controle deste peso, não é? Agora, um paciente operado ele não vai comer de tudo depois de fazer essa redução do estômago, certamente ele vai ficar mais intolerante aquelas comidas mais pesadas, não é? É certo ou errado isso, doutor?

Dr. Marcelo Falcão – É certo Olga. No primeiro momento sim, agora ao longo do tempo estes pacientes vão ter acesso a essas comidas, principalmente na nossa região o mocotó, o sarapatel, ele não vai ter volume, mais o paladar ele vai ter acesso. Ele não vai comer aquele “mocofato”, aquela farinhada ele não vai poder, mas o paladar, provar ele vai.

Olga Goulart – E nem uma quantidade muito também grande, ele vai ter que diminuir um pouco essa quantidade.

Dr. Marcelo Falcão – É isso. O volume é totalmente reduzido, o volume é bem reduzido. O que acontece na maioria das vezes é que estes pacientes criam uma intolerância a uma comida muito gordurosa.

Olga Goulart – Doutor, podem existir complicações após a cirurgia?

Dr. Marcelo Falcão – Sim, podem existir complicações após a cirurgia bariátrica como em qualquer outra cirurgia do aparelho digestivo. Complicações da cirurgia bariátrica são um pouco mais temíveis porque o paciente é um paciente de risco e difícil avaliação. Entre as principais complicações da cirurgia bariátrica existe a fístula, que é um vazamento da costura da anastomose que nós fazemos e esse vazamento pode ser decorrente de uma infecção e você ter um quadro por vezes catastróficos. E outra é o tromboembolismo pulmonar, que nós fazemos sempre a profilaxia para trombose com o uso de meias e medicações e principalmente em pacientes com movimentação precoce após a cirurgia. A fisioterapia é fundamental neste pós-operatório imediato. Há outras complicações menores como o estreitamento, mas hoje graças a Deus há curva de aprendizado em todo o país, principalmente na nossa capital com belas equipes, com estrutura montada e experiência de todos os profissionais. Estas complicações têm sido minimizadas e quando ocorridas elas são logo diagnosticadas e com uma boa evolução. Complicação sempre vai existir Olga, não tem cirurgia sem complicação.

Olga Goulart – E às vezes a complicação em função de um sobrepeso é muito maior do que propriamente as consequências que porventura venham acontecer após a cirurgia bariátrica. É avaliar o custo-benefício mesmo e estar monitorando de uma forma muito responsável este paciente, não é doutor?

Dr. Marcelo Falcão – É exatamente, você tem que pôr na balança qual o risco que você vai ter da cirurgia e aí existe uma corrente em que eu faço parte e defendo muito que é operar o obeso jovem, não deixar ele virar um obeso idoso, você tem menos complicações, menos riscos e isso é uma coisa muito interessante. E tem mais benefícios, ele se insere no mercado, ele é menos discriminado socialmente e isso é verdade, não adianta a gente tampar o sol com a peneira. E o obeso jovem ele tem muito mais benefícios e tem o prolongamento da sua vida muito maior. O benefício da cirurgia quando bem indicada, Olga, é incontestável.

Olga Goulart – Uma mulher pode engravidar depois de realizar o procedimento? Quanto tempo maios ou menos se estabelece para que essa gravidez aconteça?

Dr. Marcelo Falcão – É Olga, a gente tem como parâmetro adequado após 2 anos, 2 anos é o ideal. Por que 2 anos? Porque no primeiro ano a paciente vai estar equilibrando essa parte nutricional que nós havíamos falado. Como falta nutriente para um adulto, imagine para um bebê? A mãe tem que estar bem alimentada para nutrir este bebê. Se você tem uma gravidez em um estado de desnutrição, é o que acontece muito pelo mundo afora, na África e aqui no Nordeste quando a gente vai para dentro mesmo do Sertão, são bebês raquíticos e desnutridos porque suas mães são assim, a cirurgia bariátrica pode ser que aconteça isso porque seu corpo está se readaptando. Como é que ele vai se readaptar com uma sobrecarga? Então nós orientamos pelo menos 1 ano e meio na pior das hipóteses, mas o ideal são 2 anos.

Olga Goulart – E para começar a fazer as cirurgias plásticas reparadoras, doutor? Porque naturalmente a pessoa vai perder muita gordura e o tecido, a pele vai ficar um pouco flácida e fica a necessidade, muitas vezes, de fazer uma reparação através de uma cirurgia plástica. Quanto tempo normalmente se estabelece?

Dr. Marcelo Falcão – Eu encaminho após um ano, que é o período de cicatrização histológica, que nós sabemos que existe o processo de cicatrização que dura praticamente um ano e após um ano com o peso estabilizado você orienta procurar um cirurgião plástico para fazer uma avaliação inicial. Porque se o paciente ainda continua perdendo peso, tem pacientes com desenvolvimento na atividade física muito grande, você espera isso acomodar para você não fazer uma plástica e daqui a 6 meses você perder mais peso e ficar flácido normalmente. Então a partir de 1 ano você começa a procurar e fazer a avaliação com o seu cirurgião plástico e determinar em que ponto já está estabilizado e que ele pode reparar que ele vai ter um benefício. Como muitas vezes não precisa fazer aquela lipoescultura, você parar tudo por conta da sua mudança de vida e principalmente seus hábitos com a atividade física, o músculo aparece e torneia aquela pele, há alguns excessos, é claro, que precisam ser retirados principalmente em abdome, coxa e isso aí realmente quando o emagrecimento é vultuoso você tem que tirar isso aí.

Olga Goulart – Muitas pessoas, doutor, acabam ganhando peso novamente, ela conquista o peso desejado e depois volta a engordar. Quais são as suas recomendações para que isso não ocorra?

Dr. Marcelo Falcão – Olha Olga, hoje é o grande desafio da Sociedade Mundial de Cirurgia Bariátrica e o reganho de peso. Primeiro é importante para o paciente saber que obesidade não tem cura, obesidade é uma doença crônica, a cirurgia vem estabilizar, de dar uma qualidade de vida, é a famosa segunda chance para este paciente. Se ele não mudar o hábito de vida, ele pode fazer a cirurgia no melhor lugar do mundo, com o melhor profissional do mundo e ele vai reganhar peso. Este paciente para não engordar ele tem que seguir as orientações da equipe multidisciplinar e fazer este acompanhamento como nós havíamos falado e principalmente mudar seus hábitos. Isso é o que vai dar durabilidade e sequência de uma qualidade de vida maior para ele. O reganho de peso hoje é sabido por todos nós, são dependentes do modo de vida do paciente, se ele volta para situações de sedentarismo, de ingesta, porque você perde a capacidade de volume, mas a ingesta com qualidade gordurosa, hiperglicêmica, com muito açúcar, isso é ruim, esse é o fator principal para o reganho de peso.

Olga Goulart – É um procedimento muito caro? É possível inclusive realizar esta cirurgia pelo Sistema Único de Saúde?

Dr. Marcelo Falcão – O Sistema único de Saúde tem realmente um programa para cirurgia bariátrica. Na Bahia ele está um pouco travado, não tem uma fluidez muito grande, a fila no Hospital das Clínicas é muito grande, a fila no CEDEBA (Centro de Diabetes e Endocrinologia do Estado da Bahia) que é o centro que coordena isso também é muito grande. O custo da cirurgia particular é muito alta, é muita tecnologia, principalmente por nós operarmos por laparoscopia, isso tem um custo que não é acessível a qualquer brasileiro, principalmente na nossa realidade. 

Quanto ao SUS, eu acho importante falar que não é só operar obesidade. O SUS tem que montar uma situação, um centro onde o paciente opere, mas ele faça exames de sangue, ele tenha acesso a uma equipe multidisciplinar, não é só operar. Eu sou cirurgião e eu sozinho não trato a obesidade, eu tenho que tratar com uma equipe. Se o SUS quiser fazer um tratamento para este paciente, ele tem que ter o cirurgião e uma equipe multidisciplinar de fácil acesso. Onde é que nós vamos internar esse paciente, onde ele vai fazer exames sequenciais? Porque o paciente operado ele é igual ao do convênio e igual do particular, ele tem que ser bem acompanhado, se não vai voltar de novo para o reganho de peso.

Olga Goulart – Ok. Doutor, muito obrigada pela entrevista. Conversamos com o médico Marcelo Falcão, especialista em cirurgia bariátrica. Até a próxima oportunidade aqui no Viva Mais Viva Melhor, doutor!