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Tema: Reganho de peso após cirurgia bariátrica

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Viva Mais Viva Melhor – A obesidade hoje é um dos problemas de saúde mais preocupantes do mundo e a cirurgia de redução do estômago pode ser a solução para quem está muito acima do peso. Porém, ela não faz milagres e o grande desafio da Sociedade Mundial de Cirurgia Bariátrica é o reganho de peso. Por isso, é preciso ficar alerta às recomendações médicas, ou seja, se o paciente não mudar os seus hábitos de vida não vai manter o peso que conseguiu perder com a cirurgia. Para tirar as dúvidas a respeito ao assunto quem conversa conosco é o médico Marcelo Falcão, especialista em cirurgia bariátrica.

Doutor, primeiramente explica para os nossos ouvintes o que é obesidade e quem pode ser considerado obeso?
Dr. Marcelo Falcão – Olá Olga, é um prazer estar aqui com vocês novamente. A obesidade é uma doença crônica caracterizada pelo excesso de gordura no corpo. A cirurgia para ser considerada obesa a Organização Mundial de Saúde (OMS) fez uma classificação em 3 níveis, até 29,9 de índice de massa corpórea, que é um índice que se obtém com o peso dividido pela altura ao quadrado, você tem sobrepeso, acima de 30 você já tem obesidade, de 30 a 34,9 obesidade grau I, de 35 a 39,9 obesidade grau II e acima de 40 grau III. É a característica da obesidade conforme a Organização Mundial de Saúde.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor Marcelo, quais são os principais problemas de saúde que estão relacionados a obesidade?
Dr. Marcelo Falcão – Em primeiro lugar o diabetes, depois a hipertensão arterial, a apneia do sono que é aquele ronco e é uma doença que é pouco diagnosticada pela dificuldade de se fazer a polissonografia que é um exame que calcula e quantifica essa doença, mas é uma doença muito comum se fizer um inquérito fácil e a obesidade tem uma relação muito grande com ela, que é aquele paciente que ronca bastante, que dorme em qualquer lugar que encosta. São as 3 principais doenças. Além de tudo, tem a esteatose hepática que é a gordura no fígado e a parte psicológica, que é a depressão e o isolamento social. Então acho que são estas 5 as principais causas mais comuns no nosso meio.

Viva Mais Viva Melhor – Dentro desse contexto, tem aumentado a procura pela cirurgia bariátrica no Brasil?
Dr. Marcelo Falcão – Sim, o Brasil está entre os 5 países que mais realizam a cirurgia bariátrica.

Viva Mais Viva Melhor – Qual que é a importância, doutor, do acompanhamento multidisciplinar após a cirurgia de redução do estômago? Quanto tempo o paciente operado precisa ser acompanhado?
Dr. Marcelo Falcão – O acompanhamento multidisciplinar é tão importante quanto a cirurgia. O acompanhamento multidisciplinar é um acompanhamento que tem que ser feito antes da cirurgia e imediatamente após a cirurgia. Este acompanhamento é de longo prazo, não precisa necessariamente você ter uma frequência menor, mas pelo uma vez ao ano após o segundo e terceiro ano de cirurgia é importante que o paciente volte a equipe multidisciplinar para ter uma orientação e avaliar. Alguns pacientes precisam em cada especialidade ser acompanhado. Tem pacientes que precisam ser seguidos com acompanhamento psicológico, outros precisam acompanhar com cardiologia, porque diminui o peso, melhoram a hipertensão, mas podem ter uma arritmia, ter uma história de doença cardiológica. A nutrição não é só dieta para emagrecer, a nutrição é importante no acompanhamento para poder diversificar a sua alimentação, orientar, o paciente que perdeu peso e vai fazer atividade física ele tem que ter uma dieta orientada com proteína, com boa hidratação. Então não é só aquela coisa para operar, é um acompanhamento que realmente trata a obesidade ou, pelo menos, acompanha para esse tratamento ser duradouro, porque a obesidade não tem cura. Se você mantém esse tratamento multidisciplinar adequado, regular, você vai ter sucesso no controle da obesidade.

Viva Mais Viva Melhor – E por quê que acontece o reganho de peso? É correto afirmar que o estômago volta a crescer?
Dr. Marcelo Falcão – É Olga, o reganho de peso tem várias nuances, mas principalmente esse descompromisso com a equipe multidisciplinar. O paciente volta realmente a hábitos que deveriam ser deixados para trás, como ele na maioria das vezes promete antes da cirurgia. Quanto a alteração anatômica do estômago crescer, em alguns casos realmente este estômago pode dilatar. O estômago é uma musculatura, é um órgão vivo e ele pode distender de acordo com a carga que você dê a este estômago. Existe o componente que colocávamos antes nas cirurgias que é um anel para poder fazer uma sutura e fazer semelhante a uma ampulheta, você tinha largo, afinado no meio para passar pouco e depois largo de novo. Este anel era essa parte fina da ampulheta. Hoje em dia a gente não coloca mais porque se sabe que este anel a longo prazo pode levar este paciente ao reganho de peso. Por que motivo? Porque ele tem intolerância a sólido e começa a beber mais líquidos hipercalóricos, comida pastosa hipercalórica e ganha peso. Então o reganho de peso não é uma coisa simples, é multidisciplinar realmente e tem nuances diferenciadas.

Viva Mais Viva Melhor – Tem como reverter essa situação, doutor? O quê que pode ser feito para contornar esse reganho de peso depois da cirurgia?
Dr. Marcelo Falcão – Primeiro é o paciente voltar para a equipe multidisciplinar, antes de qualquer pensamento de tratamento cirúrgico ou endoscópico que existe nós temos que primeiro botar esse paciente numa multidisciplinar. Muitas vezes o paciente operado voltando a uma equipe multidisciplinar ele tem uma volta da sua perda de peso e consegue recuperar esse excesso de peso conseguido. Muitas vezes quando ele já volta numa fase mais tardia e de maior abandono dessa equipe multidisciplinar nós lançamos mãos em tratamento endoscópico e até de uma reoperação em algumas situações.

Viva Mais Viva Melhor – E como é que funciona o tratamento endoscópico para o reganho de peso?
Dr. Marcelo Falcão – Hoje no Brasil nós temos o plasma de argônio. O plasma de argônio já é usado em endoscopia há muito tempo. Nós usávamos principalmente para pacientes hepatopatas, para ectasias vasculares, sangramento das veias anômalas. No reganho de peso do paciente bariátrico o argônio entra como uma ferramenta para a gente diminuir o diâmetro da anastomose. O que é a anastomose? É a junção daquele estômago novo com o intestino, uma costura que nós fazemos quando operamos. Essa anastomose alargada com o plasma de argônio fazemos uma queimadura, uma cauterização e na cicatrização de toda cauterização existe uma retração de tecido, retraindo essa região você vai diminuir o calibre, você aumenta a restrição, mas isso só tem um efeito positivo se atrelado a uma orientação nutricional, a um cardápio adequado e, principalmente, a um acompanhamento multidisciplinar. São todos os pacientes que podem fazer isso? Nem todos os pacientes que podem fazer isso. Pacientes que tem anel, pacientes que já têm uma anastomose reduzida não podem fazer o plasma de argônio, porque pode fechar muito e fazer um quadro de estenose, ou seja, de fechamento completo e você ter que abrir mão disso aí.

Viva Mais Viva Melhor – Esse tratamento endoscópico com o laser, doutor, pode ser realizado várias vezes?
Dr. Marcelo Falcão – Pode. O plasma de argônio você pode lançar mão dele até um diâmetro adequado onde passa o alimento, nós calculamos em torno de 12 milímetros a 15 milímetros (1 centímetro a 1,5 centímetro). O tratamento endoscópico está por vir aqui para o Brasil ainda, nós temos chance de utilizá-lo na Europa e em breve a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) deve estar liberando que é a sutura mecânica, não está disponível, mas em breve, creio que em mais 1 ano, deve estar disponível no Brasil e a gente vai poder refazer essa cirurgia ou essas costuras e diminuir esse estômago que é largo por endoscopia, diminuindo muito a morbidade, o risco de uma nova cirurgia.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, qual é o resultado que o paciente pode esperar desse tratamento com o laser de argônio?
Dr. Marcelo Falcão – Os estudos dos últimos 2 anos têm uma perda de peso em torno de 15% a 22%. Nós estamos desenvolvendo agora um estudo multicêntrico no Brasil para avaliar realmente isso e ter dados estatísticos. Acho que em mais 2 anos teremos muito estudo de argônio, porque estão sendo feito muitos estudos sérios e com base estatística, mas a frequência que nós vemos nos congressos e conversando com amigos variam entre 15% a 22%.

Viva Mais Viva Melhor – Um paciente que fez a cirurgia de redução do estômago caso volte a engordar ele pode fazer a cirurgia novamente?
Dr. Marcelo Falcão – A cirurgia novamente não, ele pode fazer um retoque. Se ele fizer a cirurgia mais realizada que é o Bypass. O Bypass, que é a cirurgia do desvio, o estômago já é muito pequeno, quando esse estômago cresce você pode refazer esta cirurgia fazendo um ajuste desse estômago, moldando esse estômago. Isso é possível, mas não é fácil, é uma cirurgia complicada e de grande risco. Nós realizamos em alguns pacientes selecionados, não são todos, mas é possível sim. Uma outra cirurgia que é a gastrectomia vertical, uma cirurgia onde inicialmente só se modifica o estômago, esse paciente voltando a ganhar peso você pode transformar essa cirurgia numa cirurgia de Bypass, uma cirurgia do desvio porque não tinha sido feita antes, então você pode fazer essa cirurgia. A reoperação de bariátrica é um tema que não dá para você generalizar, é muito individualizado, mas é possível. Precisa que o paciente procure o médico dele, realmente se informar, fazer avaliações importantes e não adianta operar se você não fizer antes um acompanhamento multidisciplinar, é bobagem fazer isso. A cirurgia é sempre o último tiro que nós temos da nossa arma contra a obesidade, primeiro as medidas não cirúrgicas sempre.

Viva Mais Viva Melhor – Bom, para finalizar, doutor, quais as dicas que o senhor daria para um paciente que fez a redução do estômago para que ele não volte a ganhar o peso como antes?
Dr. Marcelo Falcão – A primeira coisa é mudar os hábitos de vida, sair do sedentarismo. Eu costumo dizer aos meus pacientes que pelo menos se movam, isso é fundamental, você abandonar os hábitos ruins e o sedentarismo é um deles. Outro é manter um cardápio adequado, sem exageros, não precisa você se privar, não é comer salada o tempo todo, você vai poder comer tudo, mas em menor quantidade e em valores compensatórios. O que é isso? Você não precisa comer uma feijoada todo o dia, você não precisa fazer farra todo o dia. Faça uma compensação, faça durante a semana uma dieta adequada, mantenha um cardápio saudável e uma vez por outra você vai se permitir um exagero que após a cirurgia você também tem uma vida social e nós sabemos como é uma vida social, não dá para também ser isolado. 

Viva Mais Viva Melhor – Eletivo demais.
Dr. Marcelo Falcão – Não tem condição, isso não existe, você tem que encarar isso com um pouco de verdade da nossa vida.

Viva Mais Viva Melhor – Ok. Conversamos com o doutor Marcelo Falcão, especialista em cirurgia bariátrica. Doutor, muito obrigada e até a próxima.