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Tema: Câncer de Estômago

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Olga Goulart – De um lado temos o drama da maioria dos brasileiros, com relação a sua saúde, que se chama azia, má digestão, e logo na sequência nós temos um caminho muito curto que a maioria das pessoas seguem, tomar antiácido sem prescrição médica e por um longo período de tempo.

Hoje nós vamos conversar com o cirurgião oncológico Dr. Thiago Francischetto. Doutor Thiago, o que é que significa para a população atitudes como essa que eu acabei de citar?

Dr. Thiago Francischetto – Então Olga, uma atitude que a gente tem que ter muito cuidado. Na maioria das vezes esses sintomas de dor abdominal, sintomas de queimor retroesternal, realmente estão associados com doença de refluxo, mas para a gente tratar ela corretamente, este paciente precisa ser avaliado por um especialista para confirmar esse diagnóstico. É um tratamento que na maioria das vezes se faz com medicação e algumas medidas de mudanças de hábitos alimentares e que na maioria das vezes tem sucesso. O grande problema disso tudo Olga, é quando a gente está diante de algum outro problema mais sério que também pode se manifestar com os mesmos sintomas, como é, por exemplo o caso de uma lesão neoplásica, de um tumor ou até de um câncer no estômago. Por isso que é importante sempre que tiver algum sintoma ou algum novo sintoma que não costumava ter, procurar um especialista, procurar um médico, inicialmente um gastroenterologista ou até mesmo um cirurgião oncológico para fazer esta avaliação corretamente e fechar o diagnóstico, e aí sim tratar com as medicações adequadas para este problema.

Olga Goulart – Verdade. Bom, quando a gente fala de câncer de estômago, não que a gente queira alarmar obviamente, mas é muito importante esta investigação de dores estomacais, de azia e má digestão, até mesmo uma gastrite. Partindo deste pressuposto, eu te pergunto doutor, a gastrite pode evoluir para um quadro de câncer?

Dr. Thiago Francischetto – Então, outra pergunta importante Olga, na grande maioria das vezes a gastrite é um problema benigno que não evolui para o câncer. Na grande maioria das vezes estes sintomas estão associados realmente com problemas benignos e podem ser tratados com simples medicações. Mas existe um tipo específico de gastrite, que é a gastrite crônica atrófica, que está associada a uma infecção crônica pela aquela bactéria chamada de H. pylori que pode evoluir para uma lesão mais séria e até mesmo um câncer. Então a gente sabe que estes casos associados de gastrite crônica atrófica, associada a presença dessa bactéria, devem ser tratados com medicações para bloquear a evolução deste problema para alguma coisa mais séria como um câncer. A gente sabe que 60% dos casos de câncer gástrico estão associados com a infecção pelo H. pylori. Então é importante a identificação disso e o tratamento correto.

Olga Goulart – Ok. Bom, foi ótimo você ter falado de H. pylori, porque muitas pessoas são diagnosticadas com essa infecção pela bactéria H. pylori, uma vez detectada a presença do H. Pylori, é possível erradicar esta bactéria? Qual é a forma de tratamento melhor indicada?

Dr. Thiago Francischetto – É possível. Atualmente a gente faz o diagnóstico desta infecção pelo exame da Endoscopia, que é um exame simples, que geralmente é feito ambulatoriamente, a gente colhe um material do estômago para avaliar a presença desta bactéria. Uma vez detectada então esta bactéria, é indicado um tratamento prolongado, que dura geralmente 30 dias, com várias medicações, são várias medicações que a gente associa, medicações que bloqueiam a produção ácida, associado com alguns antibióticos e que deve ser realmente tratado de maneira correta, seguindo direitinho as orientações do médico, porque ela é uma bactéria de difícil erradicação, mas que é possível. Aí uma vez que é tratado a gente pode repetir o exame para confirmar se foi erradicado ou não essa bactéria. Mas existem hoje vários tratamentos com taxa de erradicação da bactéria de acima de 90%, então é um tratamento muito mais simples do que a gente deixar evoluir para alguma coisa mais séria.

Olga Goulart – Ok doutor Thiago. Bom, em tempos que se fala tanto de culto ao corpo, de atividade física, até as vezes em exagero, ou mesmo dietas alimentares, nós sabemos que o melhor caminho e mais seguro é sempre consultar o seu nutricionista, ter um educador físico ou pelo menos uma consciência corporal, coisas que nem todos conseguem adotar esta medida. De qualquer maneira, é bom que se diga doutor, que uma alimentação saudável é uma das melhores formas de prevenção contra qualquer problema estomacal, não é não?

Dr. Thiago Francischetto – Perfeito Olga. Não digo só para ajudar na prevenção de problemas estomacais, como também de vários tipos de câncer, como o câncer de intestino, câncer do pâncreas, também previne doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde graves, e falando mais especificamente do problema do câncer de estômago, a gente sabe que o câncer de estômago está bastante associado com alguns hábitos alimentares não saudáveis, como por exemplo a ingesta de alimentos muito condimentados, geralmente alimentos conservados com carne salgada, que é muito comum a gente ver aqui na Bahia e no interior, então isso tem uma grande associação com o câncer de estômago. A gente até fala que alimentos saudáveis e alimentos bem conservados auxiliam na prevenção dessa doença. A geladeira neste caso é sem dúvida uma coisa que a gente usa para realmente diminuir essa incidência.

Olga Goulart – Verdade. Já que você falou de condimentos, de conservação, de má conservação dos alimentos, vamos falar um pouquinho das carnes que é um erro muito comum as pessoas descongelarem as carnes, as vezes na janela do apartamento, em algum cantinho da casa onde esteja batendo sol para acelerar o processo de descongelamento, isso portanto significa um risco para nossa saúde e sério, não?

Dr. Thiago Francischetto – Sem dúvida. A gente tem que ter muito cuidado com a conservação desses alimentos, a gente sempre tem que dar preferência a verduras, frutas, alimentos bem conservados, alimentos saudáveis que são chamados de alimentos frescos que a gente acabou de obter e ele está conservado e principalmente evitar conservá-los com sal e outros condimentos. Isso a gente tem realmente associação com a incidência de câncer de estômago.

Olga Goulart – Abusar do sal também não é uma boa medida, não é doutor?

Dr. Thiago Francischetto – Com certeza, não é mesmo, inclusive para outros problemas de saúde como hipertensão, diabetes, problemas renais. Não abusar do sal é uma medida que devemos adotar para nossa vida, com hábitos realmente mais saudáveis.

Olga Goulart – Doutor, dentro dos exames que são solicitados, a gente houve muito falar em Endoscopia, as vezes até na Colonoscopia, quando é necessária a realização destes exames?

Dr. Thiago Francischetto - Olha Olga, a Endoscopia não é um exame que a gente faz de rotina, como por exemplo a Mamografia, ou nos pacientes do sexo masculino a gente faz o exame de próstata anual a partir de 45 a 50 anos, ela deve ser sempre solicitada por um médico especialista na presença de alguns sintomas que indiquem algum problema gástrico, ao contrário da Colonoscopia. A colonoscopia já tem uma indicação de ser realizado independentemente dos sintomas ou o método realmente de rastreamento para o tumor do intestino a partir dos 55 anos, as vezes a gente deve realizar este exame até mais cedo, a depender, por exemplo, se a gente tiver algum parente de primeiro grau que já teve um tumor de intestino ou as vezes tumor em outros lugares a gente pode começar mais cedo a fazer esses exames.

Então são 2 exames muito importantes que auxiliam o diagnóstico precoce destes tumores do aparelho digestivo e que devem ser, a Endoscopia indicada pelo médico especialista e, a Colonoscopia sempre pensar em fazer a partir dos 55 anos de idade.

Olga Goulart – Ok. Doutor, existem algumas pessoas que podem tomar... eu vou dar exemplos assim bem populares, como uma colherzinha de azeite para proteger o estômago antes de tomar um drink a mais ou outros tipos de medicamentos mais populares que são vendidos sem prescrição médica para proteger o estômago quando se está disposto a beber um pouco mais que o normal. Isso é considerado aceitável dentro da sua especialidade que é um cirurgião oncológico?

Dr. Thiago Francischetto – Não Olga, isso aí realmente a gente não tem nenhum embasamento científico para respaldar este tipo de conduta, de tomar certos medicamentos ou alguns tipos de alimentos antes de ingerir álcool ou alguma outra substância nociva. O que a gente realmente deve fazer é ter hábitos alimentares saudáveis, dar preferência a frutas, verduras, isso a gente sabe que está associado com a diminuição de não só do câncer gástrico, mas também de vários outros tipos de câncer, vários outros tipos de problemas de saúde. A ingestão alcóolica é um fator de risco para vários tipos de câncer, então também deve ser evitada. Vale lembrar também o tabagismo que é uma substância extremamente nociva, que a gente tem que combater realmente, para a gente realmente se transformar em uma sociedade com hábitos mais saudáveis e o mais importante que é prevenir essas patologias. Não adianta a gente querer tratar quando já tem o problema instalado, porque aí já é tudo mais complicado, se a puder evitar estes problemas é sempre melhor e aí a prevenção é o mais importante.

Olga Goulart – Ok. Então, só recapitulando, vamos ver se eu já aprendi, mesmo porque dentro do Viva Mais tem uma matéria bem completa de tudo isso que estamos falando aqui, mas de qualquer maneira lembrar que mastigar bem os alimentos é muito importante nesta vida tão frenética que a gente adotou, não é? De uns tempos para cá, muita correria, a gente não tem tempo para fazer as refeições. Mastigar bem os alimentos é muito importante, bem como fracionar a nossa alimentação e não passar longos períodos sem se alimentar, é verdade?

Dr. Thiago Francischetto – Perfeito Olga. É muito importante! Quando a gente fala de hábito de vida saudável, não está relacionado só com o alimento, mas com os hábitos que você tem durante a alimentação realmente, mastigar bem os alimentos, comer devagar. Isso tudo a gente observa que esses pacientes tem uma propensão menor a obesidade e a outros problemas de saúde. A questão de fracionamento da alimentação, comer de 3 em 3 horas comidas saudáveis. O problema é quando a gente fica um período prolongado em jejum, geralmente a gente não come alimentos saudáveis, então a gente está com tanta fome que a gente come outras coisas que não são saudáveis.

Olga Goulart – A gente quando passa longos períodos sem se alimentar, a gente come aquilo que a gente visualiza no primeiro outdoor que passa pela nossa frente.

Dr. Thiago Francischetto – E geralmente não é uma coisa boa, geralmente a gente vai comer uma coisa que não é uma coisa boa. Então tenha sempre cuidado para evitar muito tempo sem se alimentar é muito importante para a gente conseguir seguir uma dieta e uma alimentação saudável. E aí a gente só vai ter benefício com isso, a gente vai mantendo um peso bom, evitar problemas de saúde como diabetes, pressão alta, diminuir o risco de vários tipos de câncer, então só tem a ganhar realmente com isso.

Olga Goulart – Bom doutor, a gente incorre também no erro de culpar sempre nossa herança genética, quando na verdade nossos hábitos alimentares são os grandes responsáveis na maioria das situações por complicações, não é? Levando obviamente em algumas situações ao câncer do estômago. Qual que é a incidência em termos proporcionais de ser uma coisa genética, de fatores ambientais?

Dr. Thiago Francischetto – Perfeito Olga, outra pergunta importante. Hoje a gente sabe que 90% dos cânceres do estômago tem uma relação mais com hábitos de vida, hábitos alimentares do que com herança genética, apenas 5 a 10% dos cânceres de estômago tem relação realmente com um tipo específico de mutação que evolui, que tem uma grande chance de evoluir para um câncer de estômago. Isso não é só com relação ao estômago, a gente vê esses dados estatísticos semelhantes com outros tipos de tumores também. Por exemplo a gente teve um caso recente da Angelina Jolie que fez aquela cirurgia profilática de mama porque sabia que tinha uma alteração genética e que tinha uma alta incidência de evoluir para o câncer, sabendo disso ela fez uma cirurgia chamada profilática para evitar realmente o desenvolvimento e o aparecimento desse problema. No estômago especificamente a gente tem já uma indicação de uma proteína que quando associada com a mutação de determinado gene está associado com o risco de 70 a 80% do desenvolvimento de câncer de estômago ao longo da vida.

A gente deve realmente sempre pensar numa herança mais hereditária ou numa relação familiar quando a gente já teve algum caso de câncer de estômago na família, geralmente acometendo uma idade mais jovem, abaixo de 50 anos, vários casos na família, isso tudo chama a atenção para a gente pensar em algum comportamento genético e aí sim investigar com o intuito de evitar problemas com outros familiares.

Olga Goulart – Doutor, então intolerância então faz como? Intolerância ao glúten, intolerância a lactose, isso o organismo acostuma, como a gente costuma pensar que é, não sei se é verídico isso. O organismo vai se acostumar com isso? Ou é melhor que a gente tome os devidos cuidados mudando radicalmente nosso estilo de alimentação?

Dr. Thiago Francischetto – A lactose especificamente a gente observa que com o passar da idade a gente vai tendo mais dificuldade de absorver essa substância, então é interessante a gente mudar os hábitos alimentares. Hoje a gente tem vários alimentos que não tem lactose, leite sem lactose, então acho que isso é um hábito que principalmente naqueles pacientes que realmente a gente vê que tem intolerância, que ingerem algum alimento com lactose ficam com dor abdominal, dificuldade de digestão, as vezes alteração do ritmo intestinal, então acho que estes pacientes principalmente tem que pensar realmente em substituir estes alimentos, mas habitualmente a gente só faz essa substituição quando tem alguns sintomas.

Olga Goulart – Doutor Thiago Francischetto foi um grande prazer conversar com você, a família Viva Mais Viva Melhor agradece. E só uma perguntinha aqui, estômago tem boca mesmo? Aquela dor na boca do estômago é verdadeira?

Dr. Thiago Francischetto – A dor do estômago pode se manifestar realmente nesta região, mas tem outras patologias que a gente pode ter essa dor nesse mesmo lugar.

Olga Goulart – É que pensei que tivesse boca, nariz olho e que o estômago fosse de forma mais completa para justificar essa expressão ‘dor na boca do estômago’.

Dr. Thiago Francischetto – Pois é, seria até interessante realmente sempre que tivesse dor em tal lugar e a gente soubesse que está relacionado a problema em tal lugar, mas infelizmente não é assim. Podem ser várias coisas esse tipo de dor na boca do estômago, então a gente tem que procurar um médico para avaliar.

Olga Goulart – Ok doutor Thiago Francischetto, muito obrigado e até a próxima oportunidade.

Thiago Francischetto – Obrigado mais uma vez Olga, foi um prazer falar com vocês, espero ter ajudado aí.

Olga Goulart – Ajudou, ajudou muito. Um grande abraço.

Thiago Francischetto – Abraço.