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Tema: Tratamento para Endometriose

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Viva Mais Viva Melhor – Você conhece a endometriose? Pois bem, é a maior causa de infertilidade. É uma doença exclusivamente do sexo feminino e que afeta cerca de 1 a cada 10 mulheres em idade reprodutiva. Realizada com medicações, cirurgia e mudanças no estilo de vida, o tratamento vai depender basicamente dos sintomas, das complicações da doença e também da vontade da paciente em engravidar. E quem conversa conosco sobre o assunto é o médico doutor Alan Coutinho, especialista em ginecologia e obstetrícia. 

Doutor, vamos explicar primeiramente qual é o exame ideal para se detectar a endometriose?

Dr. Alan Coutinho – O melhor exame para desvendar a endometriose é o ouvido médico. A história bem contada, associada a um exame físico minucioso é capaz de determinar, na maioria das vezes, a provável existência da doença. Já nos casos onde há necessidade de aprofundar a investigação, os exames a serem realizados são ressonância nuclear magnética ou ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal. No entanto, os métodos de imagem apresentam duas limitações importantes. Primeiro, existe uma pequena quantidade de profissionais capacitados para realizar o exame de forma adequada. Segundo, a endometriose superficial apresenta-se na forma de aderências e implantes mínimos que podem passar desapercebidos pela ultrassonografia ou pela ressonância magnética e nesses casos se a dor não melhorar com as medicações ou se a mulher não consegue engravidar, então é indicada a laparoscopia cirúrgica com biópsia, o exame padrão ouro para confirmar ou afastar o diagnóstico de endometriose.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor Alan, hoje fala-se muito em diagnóstico precoce, no caso da endometriose também é importante considerar este aspecto?

Dr. Alan Coutinho – Com certeza. Existem evidências científicas que o diagnóstico precoce e o tratamento precoce alivia a dor, melhora a qualidade de vida e preserva a fertilidade feminina. Infelizmente Olga, o diagnóstico e tratamento precoce ainda é negligenciado. Estudos mostram que levam em média 7 anos do início dos sintomas para o diagnóstico ser confirmado. Eu pessoalmente aconselho que as mulheres que menstruam antes dos 12 anos, que tem dor pélvica por mais de 6 meses, usa analgésico para as cólicas menstruais, tem um histórico de acne grave na adolescência ou histórico familiar de endometriose ou infertilidade, que tem dor à penetração ou menstruação com coagulo, estas mulheres devem procurar um médico que escutem atentamente suas queixas e realizem um acompanhamento adequado para que seja feito ou afastado o diagnóstico de endometriose.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, depois que fecha um diagnóstico de endometriose, quais são as opções de tratamento para a doença?

Dr. Alan Coutinho – Bom, para falar sobre opções de tratamento, inicialmente temos que dividir as pacientes em dois grupos, o primeiro com mulheres que sentem dor e o segundo grupo com as que não conseguem engravidar. Para as que sentem dor o principal objetivo é a suspensão da menstruação, pode ser usada a pílula anticoncepcional de forma contínua, o sistema intrauterino com medicamento, a injeção de 3 meses ou de implantes hormonais. O tratamento também pode ser cirúrgico e consiste na cauterização ou retirada dos focos de endometriose associando a quebra de aderência, procurando restabelecer a anatomia normal do ventre feminino. 

Já no segundo grupo de pacientes com infertilidade o tratamento deve ser sempre individualizado, levando em consideração alguns aspectos importantes como a idade do paciente, o grau de severidade da doença, a presença de dor, o acometimento dos ovários, a integridade das tubas uterinas e a qualidade do sêmen do parceiro. Sendo que o tratamento pode ser feito por cirurgia ou por técnicas de reprodução assistida, a exemplo da inseminação intrauterina, com estimulação ovariana, a fertilização in vitro ou a injeção intracitoplasmática de espermatozoide. Por fim, é fundamental que se tenha um diagnóstico rápido com a classificação do grau de severidade da doença para que seja realizado o tratamento adequado e o mais precoce possível.

Viva Mais Viva Melhor – Tem como mensurar os medicamentos mais usados no tratamento da endometriose ou isso vai variar da gravidade do caso.

Dr. Alan Coutinho – Bem, vai variar de acordo com o grau de severidade da doença, certamente. Sendo que o principal objetivo é o tratamento e suspensão da menstruação e envolve, na grande maioria das vezes, terapia hormonal, pode ser a injeção de 3 meses, a pílula anticoncepcional, sistema intrauterino ou implantes hormonais, sendo a medicação mais usada no mundo todo capaz de suspender a menstruação é a medroxiprogesterona, uma injeção que é aplicada a cada 3 meses e que foi descoberta na Bahia pelo cientista baiano professor doutor Elsimar Coutinho. Ela é a medicação mais usada no mundo principalmente nos países pobres, pois é barata, suspende a menstruação, alivia a dor e serve como método contraceptivo. Já a segunda mais usada é a pílula de anticoncepcional e de preferência essa deve ser tomada todos os dias no mesmo horário de forma contínua e sem intervalos. Tem a vantagem de ser interrompida a qualquer momento para que a paciente tente engravidar. Já nos casos mais graves eu pessoalmente tenho a preferência de prescrever os implantes hormonais, que são pequenos tubos de silicone contendo pequenas quantidades de hormônio capaz de suspender a menstruação e aliviar a dor. Estes tubinhos são colocados debaixo da pele com anestesia local e, a depender do tipo do hormônio e da quantidade, podem durar de 6 meses a 3 anos.

Viva Mais Viva Melhor – Estes medicamentos podem causar algum tipo de efeito colateral?

Dr. Alan Coutinho – Sim, Olga. Na verdade, toda medicação pode causar efeitos adversos. Não existe nenhuma medicação completamente isenta de efeitos colaterais. No entanto, a frequência e a gravidade dos efeitos colaterais é que varia de pessoa a pessoa, da duração do tratamento e principalmente da dosagem da medicação. Por isso toda medicação deve ser prescrita pelo médico que irá explicar quais são os efeitos colaterais possíveis, caso eles ocorram e caso eles aconteçam, o médico também vai explicar como tratar as reações adversas.

Viva Mais Viva Melhor – Os medicamentos, doutor, são capazes de promover a cura ou mesmo acabar com estas lesões provocadas pela endometriose?

Dr. Alan Coutinho – Bem, na maioria das mulheres o tratamento hormonal apenas diminui o tamanho ou evita o crescimento das lesões de endometriose. Contudo, existem relatos médicos de que a cada 10 mulheres com endometriose, três melhoram com o tratamento ou mesmo espontaneamente. Essa cura depende do grau de severidade da doença, da precocidade do tratamento e também de uma resposta imunológica da paciente.

Viva Mais Viva Melhor – Então se o tratamento medicamentoso for interrompido, por exemplo, a endometriose pode reaparecer?

Dr. Alan Coutinho – Sim, claro. A endometriose pode reaparecer caso o tratamento seja interrompido. A endometriose é uma doença imprevisível e o tratamento medicamentoso ou cirúrgico pode não curar completamente a endometriose. Por isso é sempre aconselhado que a mulher continue usando o tratamento hormonal e acompanhando com exames de imagem até ela chegar na menopausa, o que acontece por volta dos 50 anos e é quando ela para de menstruar.

Viva Mais Viva Melhor – Bom, você já explicou que a suspensão da menstruação é um importante tratamento clínico da endometriose. Para aquelas mulheres então que desejam engravidar basta interromper este processo e fica tudo bem?

Dr. Alan Coutinho – Pois é. Para engravidar menstruar não é preciso, ovular é preciso. Então a abordagem para a mulher engravidar com endometriose tem que ser individualizada, pois cada caso pode ter uma proposta terapêutica diferenciada, devendo levar em consideração alguns aspectos importantes, como a idade da paciente, a reserva ovariana, o estágio da doença, a presença da dor, se a endometriose atinge o ovário, se foram feitas intervenções cirúrgicas prévias, a duração da infertilidade, a presença de anormalidade nas tubas uterinas e por fim mas não menos importante a qualidade do espermatozoide do parceiro. Então a partir de uma análise detalhada podem ser propostos os seguintes procedimentos, cirurgia para retirada das lesões ou a estimulação dos ovários e um coito programado, a inseminação intrauterina, a fertilização in vitro ou mais moderno que é a injeção intracitoplasmática de espermatozoide.

Viva Mais Viva Melhor – Bom, doutor, em que circunstâncias a cirurgia é a melhor alternativa?

Dr. Alan Coutinho – O tratamento cirúrgico da endometriose é um procedimento que pode ser simples, como a cirurgia de baixa complexidade ou extremamente complexo, isso depende do grau de acometimento e dos locais em que a doença está. Por isso, sempre para uma cirurgia deste tipo, é preciso que seja feito num local de referência com uma equipe multidisciplinar para que aconteça um aumento das taxas de cura e diminuam as possibilidades de complicação. Mas de uma forma geral a cirurgia é indicada nas seguintes situações, (1) para aliviar a dor que não melhora com o uso do tratamento hormonal, (2) para quando existir um crescimento das lesões mesmo com o tratamento hormonal, (3) para pacientes com infertilidade e endometriose superficial em estágio I ou II, (4) ou com endometriose ovariana e lesões maiores que 4,0 cm, (5) também para pacientes com endometriose intestinal ou de vias ordinárias que estão apresentando sinais de obstrução.

Viva Mais Viva Melhor – Como é que é feita essa cirurgia para tratar a endometriose, doutor? Por exemplo, uma mulher que deseja engravidar tem alguma contraindicação de realizar a cirurgia ou não?

Dr. Alan Coutinho – Não tem contraindicação e as vezes tem a indicação. O tratamento é feito por laparoscopia. A cirurgia laparoscópica é um procedimento minimamente invasivo, onde o cirurgião visualiza e manipula os órgãos localizados no interior da cavidade abdominal por meio de uma câmera e utiliza pinças com menos de 1,0 cm de diâmetro fazendo pequenos cortes na pele. 

Para pacientes com endometriose a gente sabe que a depender do grau a fertilização in vitro é o tratamento mais eficaz, contudo nas mulheres cujo os sintomas de dor não melhoram com a terapia médica ou nas mulheres com endometriose superficial I e II ou nas mulheres que precisam de cirurgia imediata devido a obstrução ou estenose do intestino, o tratamento cirúrgico deve ser considerado preferencialmente antes da fertilização in vitro. E nos casos em que a paciente já fez múltiplos ciclos de reprodução assistida a cirurgia também é indicada. 

Viva Mais Viva Melhor – Bom, doutor, mesmo depois do procedimento cirúrgico, qual é o tipo de terapia indicada para que o problema não volte, as lesões não voltem?

Dr. Alan Coutinho – É verdade, a endometriose pode reaparecer após a cirurgia. Essa probabilidade de recorrência após a cirurgia para a endometriose depende do grau de acometimento da doença, da precocidade do diagnóstico e do tratamento ter sido realizado por um cirurgião ou por uma equipe multidisciplinar experiente que é o fundamental. Além disso, é aconselhado após a cirurgia de endometriose a mulher use o tratamento hormonal para suspender a menstruação e diminuir as chances da doença reaparecer.

Viva Mais Viva Melhor – Para a gente finalizar, mudanças de hábito de vida poderiam ajudar quem tem endometriose, me referindo a exercícios físicos, alimentação, isso beneficia o tratamento?

Dr. Alan Coutinho – Com certeza. Eu sempre falo para as minhas pacientes seguirem o seguinte adágio: “coma metade, ande o dobro, sorria o triplo e durma feliz”. Porque apesar de não existir um consenso científico, a ciência vai cada dia mais aprender sobre qual a melhor conduta e a gente vai aprender realmente qual é a melhor conduta dietética para pacientes com endometriose. Mas com certeza a intervenção nutricional e a mudança de hábitos de vida devem ser propostos a todos os pacientes que buscam orientação médica e esses pontos principais a serem observados são: deve se adequar o peso corporal, pacientes muito magras têm que ganhar peso, pacientes com sobrepeso têm que perder peso, é preciso que tenha uma melhora na saúde intestinal porque o endométrio está muito associado com a saúde do intestino, precisa-se potencializar a resposta do sistema imunológico que é responsável pela cura de qualquer doença é o nosso próprio sistema imunológico, devem-se reduzir alimentos que produzam inflamação, devem-se apresentar também alimentos ricos em antioxidantes. Então de uma forma geral as mulheres devem evitar o uso excessivo de antibióticos, de anti-inflamatórios e de laxantes, pois eles causam desequilíbrio intestinal e acabam piorando os sintomas da endometriose. Então eu recomendo fortemente que a mulher busque um nutricionista ou nutrólogo para avaliar o uso de prebióticos, probióticos, fibras, alimentos ricos em vitaminas e antioxidantes, pois eles ajudam a manter a saúde intestinal, melhorando a resposta do sistema imunológico e aliviando os sintomas da doença e repetindo o adágio que você gostou tanto, “coma metade, ande o dobro, sorria o triplo e durma feliz”.

Viva Mais Viva Melhor – Ótimo, doutor! Conversamos com Alan Coutinho, médico ginecologista e obstetra. Doutor, muito obrigada e até a próxima oportunidade.