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Tema: Tratamento do Câncer de Ovário

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Olga Goulart – Com uma estimativa anual de mais de seis mil novos casos no Brasil, o câncer de ovário é o quinto mais incidente na região Centro-oeste, é o sétimo nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste e na região Norte ocupa a oitava posição, segundo os dados do Instituto Nacional do Câncer, o INCA. Esse é o tumor ginecológico mais difícil de ser diagnosticado e o de menor chance de cura, por isso o diagnóstico tardio é a principal causa de morte pela doença. Para falar um pouco melhor sobre esse assunto, o câncer de ovário e as suas opções de tratamento, nós convidamos o doutor Fábio Neves que é cirurgião oncológico. Doutor, explica para nossos ouvintes porque é que o câncer de ovário é tão difícil assim de ser diagnosticado.
Doutor Fábio Neves – Bom, o câncer de ovário é difícil ser diagnosticado porque os sinais e os sintomas associados a este tipo de tumor, eles costumam ser muitos vagos e inespecíficos. Isso acaba fazendo com que a mulher ignore os sintomas e só procure o médico tardiamente, o que na maioria das vezes acaba levando ao diagnóstico já em fase avançada da doença. Os principais sinais e sintomas são distensão abdominal, sensação de pressão e desconforto ou dor na região abdominal, sensação de empachamento, perda de apetite, perda não intencional de peso, dor pélvica, fadiga e sintomas semelhantes ao da menopausa.

Olga Goulart – Qual que é a importância dessa visita regular ao ginecologista no caso do câncer de ovário? Com que frequência as mulheres deveriam voltar aos seus médicos?
Doutor Fábio Neves – Como se trata de uma neoplasia que produz poucos sinais e sintomas, o acompanhamento regular com o ginecologista, ir aí mais ou menos uma vez por ano, deve ser suficiente, seria o ideal para se conseguir identificar o problema ainda em sua fase inicial. A presença de tumoração pélvica ao exame físico ou o surgimento de uma lesão cística em uma ultrassonografia de rotina que não estava presente em um exame anterior, isso traz sinal de alerta para que o médico, ele possa complementar essa investigação.

Olga Goulart – Doutor, é sabido que os cistos nos ovários são bastante comuns entre as mulheres. Se não tratados eles podem virar um câncer? E no caso dos ovários policísticos?
Doutor Fábio Neves – A maioria das lesões císticas dos ovários, elas são benignas, não sendo necessário nenhum tipo específico de tratamento. Muitas vezes indicamos apenas o acompanhamento com exames de imagem, como as ultrassonografias pélvicas e/ou transvaginal, porém existem sinais de alerta no exame que precisam ser observados pelo médico, são eles a presença de vegetação dentro do cisto, uma massa sólida no ovário, cisto com paredes espessadas, que apresentam realce ao uso de contraste. Quando alguns desses sinais está presente, existe a necessidade de se aprofundar a investigação para se afastar suspeita ou diagnosticar o câncer de ovário. Por isso é tão importante que toda a paciente com tumoração cística ou massa pélvica seja avaliada por um cirurgião especializado em oncologia ginecológica. Com relação ao ovário policístico não existe relação entre câncer de ovário e síndrome dos ovários policísticos.

Olga Goulart – Existe, doutor, alguma relação entre a endometriose e o câncer de ovário.
Doutor Fábio Neves – Na prática essa é uma questão difícil de ser respondida. Alguns autores publicaram trabalhos que tentam relacionar endometriose com o aumento do risco de desenvolvimento do câncer de ovário, porém o que se sabe é que essa relação é muito baixa, algo em torno de 1%, ou seja, apesar de algum aumento no risco, ele continua relativamente muito baixo, o que não justifica nenhum tipo de abordagem diferenciada para essas pacientes. É importante ressaltar que eu estou me referindo ao aumento do risco de desenvolvimento do câncer de ovário e não ao tratamento de endometriose que em alguns casos, infelizmente, pode ser bastante dramático e desafiador para o médico.

Olga Goulart – E quais são os principais exames utilizados para se diagnosticar esse tipo de tumor?
Doutor Fábio Neves – Não existe um exame específico para rastrear ou diagnosticar o câncer de ovário. O que se recomenda é a visita regular ao ginecologista, com a realização de exame físico completo, a coleta de material para o exame colpocitológico, também conhecido como Papanicolau ou preventivo e o mais importante, a ultrassonografia transvaginal. Esse é o exame mais sensível para detectar a lesão na sua fase inicial. Esse exame sempre deve ser realizado por um profissional qualificado. O uso dos marcadores tumorais como CA 125, que a gente vê bastante na prática clínica, ele não tem um papel específico no rastreamento desse tipo de neoplasia, o CA 125 ele é melhor empregado no acompanhamento das mulheres que já foram adequadamente tratadas para o câncer de ovário.

Olga Goulart – É preciso fazer a retirada do útero para se tratar um tumor no ovário? E qual a possibilidade de uma mulher que tenha o câncer de ovário engravidar?
Doutor Fábio Neves – O tratamento do câncer de ovário geralmente envolve a histerectomia ou retirada do útero, porém em mulheres jovens e com doença confirmada apenas em um dos ovários, ou seja, aquelas pacientes com doença em fase inicial, que a gente chama de estadio 1A e que tenham o desejo de manter a fertilidade, tanto o útero, quanto o outro ovário, que não tem doença, eles podem ser preservados, no entanto todos os outros procedimentos associados ao tratamento cirúrgico do câncer de ovário eles precisam ser mantidos. Isso é importante porque o estadiamento desses tumores, ele pode mudar em até 30% dessas pacientes e com a mudança do estadiamento a gente precisa mudar o tratamento e aí a gente precisaria complementar a cirurgia e em alguns casos inclusive indicar o uso de quimioterapia adjuvante.

Olga Goulart – Doutor Fábio, quais são as principais opções de tratamento para pacientes com câncer de ovário?
Doutor Fábio Neves – Bom, o tratamento do câncer de ovário, ele é multidisciplinar, porém ele tem como um dos pilares principais a cirurgia. A cirurgia, ela tem dois objetivos importantes, o primeiro é o correto estadiamento do tumor e o segundo a citorredução, o que é isso? É a diminuição da quantidade de doença. A cirurgia, ela deve ser executada por cirurgião treinado e qualificado para a realização do procedimento oncológico, pois a gente já sabe através de vários estudos que o tratamento inicial realizado de forma inadequada, ele resulta em pior prognóstico, com redução importante na qualidade de vida e no tempo de sobrevida dessas pacientes. Esse tratamento ele pode ser realizado tanto da forma convencional, que é chamada de laparotômica ou por laparoscopia, que é o que chamamos de cirurgia minimamente invasiva, desde que seja realizada por cirurgião com treinamento e experiência com a técnica. Importante lembrar que toda a paciente com tumor ou massa pélvica suspeita deve ser avaliada por um cirurgião especializado em oncologia ginecológica.

Olga Goulart – Doutor, quais são os critérios que vocês utilizam para definir o melhor tratamento de cada paciente?
Doutor Fábio Neves – Essa pergunta, ela demanda alí uma resposta muito técnica, mas acredito que seja possível simplificar da seguinte maneira: o tratamento do câncer de ovário, ele está intimamente ligado ao estadiamento da doença, a idade da paciente e a própria vontade da paciente, se a paciente deseja ou não manter a fertilidade, por exemplo. Isso determina mudanças na forma de conduzir o caso. Por se tratar de neoplasia complexa e que envolve a atuação de diversas especialidades médicas, muitas vezes com o emprego de cirurgia com ressecção de múltiplos órgãos, quimioterapia antes e/ou após a cirurgia, em casos específicos até mesmo a radioterapia, sempre que possível o tratamento ele deve ser individualizado para tentar oferecer o que deixe de melhor para cada paciente.

Olga Goulart – E como é que é feito o tratamento cirúrgico? Quais são os tipos de cirurgia que estão disponíveis para tratar o câncer de ovário?
Doutor Fábio Neves – Bem, o tratamento ele pode ser realizado tanto de forma convencional, que envolve um corte maior no abdome da paciente ou por laparoscopia, que é o que chamamos de cirurgia minimamente invasiva, que permite realizar o procedimento com alguns cortes bem pequenos e sem nenhum prejuízo para um resultado oncológico do tratamento. Isso, lógico, desde que o procedimento seja realizado por um cirurgião com treinamento e experiência com a técnica.

Olga Goulart – Doutor, caso a cirurgia feita seja de retirada total do órgão, é possível viver sem o útero? Quais são os cuidados que as mulheres devem ter para ter uma vida normal após esse procedimento?
Doutor Fábio Neves – É possível sim viver sem o útero e não existe a necessidade de alteração dos hábitos de vida da paciente por conta desse procedimento, né? Pode ser que algumas mulheres desenvolvam os sintomas de disfunção sexual após a retirada do útero, mas assim, uma vez que não existe uma causa específica que justifique essa disfunção, porque a gente acredita que isso esteja associado a perda da identidade feminina após a retirada do útero, uma vez que ele está relacionado ao papel reprodutor da mulher e a sua vida sexual. Importante ressaltar que o acompanhamento regular com o ginecologista ele deve ser mantido mesmo para essas pacientes que já fizeram a histerectomia.

Olga Goulart – E quais são os possíveis efeitos colaterais da cirurgia de ovário?
Doutor Fábio Neves – Os principais efeitos colaterais da ooforectomia ou da retirada do ovário são as alterações no desejo sexual da mulher, sintomas da menopausa, aquelas ondas de calor e depressão. Já os efeitos relacionados ao procedimento cirúrgico em si, são hemorragias, infecções, formação de coágulos ou trombos, principalmente nas pernas, reações à anestesia, dentre outros.

Olga Goulart – Para finalizar doutor, os convênios de saúde, bem como o próprio sistema único de saúde, o SUS, eles oferecem cobertura para o tratamento cirúrgico do ovário?
Doutor Fábio Neves – É, tanto a rede pública, quanto a rede de saúde suplementar, ela está plenamente capacitada para oferecer o tratamento mais adequado para essas pacientes, né? Essas pacientes portadoras de neoplasias malignas de ovário.

Olga Goulart – Ok! Conversamos com o cirurgião oncológico, doutor Fábio Neves. Doutor, muito obrigada e até a próxima!