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Tema: Pediatria

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Viva Mais Viva Melhor – O bebê que se alimenta exclusivamente do leite materno até os 6 meses de vida está protegido contra diversas doenças. Além do aleitamento materno, a vacinação também faz parte dos cuidados indispensáveis para proteger as crianças desde o primeiro mês de vida. Sabemos que o nascimento de uma criança altera toda a dinâmica de uma família e muitos questionamentos e inseguranças permeiam esta jornada. Para esclarecer dúvidas sobre o assunto, quem conversa conosco é a médica Luciana Nunes, especialista em pediatria.

Doutora, para começar, o que a mãe do recém-nascido deve procurar saber numa primeira consulta ao pediatra e quando deve ser agendada esta primeira consulta?
Dra. Luciana Nunes – Oi Olga. A primeira consulta do bebê deve ser realizada o mais breve possível logo após a saída da maternidade, ainda nos primeiros dias de vida. A mãe de primeira viagem tem muitas dúvidas, principalmente sobre amamentação. Tudo é novo para ela e para o bebê também. É preciso aprender a amamentar e também a ler os sinais não-verbais, já que a comunicação com a criança nesta idade não se dá através da palavra. Além disso, mesmo para aquelas mães que já tem uma certa experiência com outros filhos, é o pediatra quem pode detectar logo nos primeiros dias de vida os sinais e sintomas de algumas doenças, como icterícia e malformações, que podem ser identificadas precocemente e tratadas logo ao nascer.

Viva Mais Viva Melhor – Doutora, e quanto aos exames que devem ser realizados nestes primeiros dias de vidas, qualque é a importância deles, quais são eles?
Dra. Luciana Nunes – Nos primeiros dias de vida é importante fazer os exames de triagem neonatal, teste do pezinho que é importante para a detecção de doenças graves e doenças raras que inicialmente não têm sintomas no bebê, mas que se detectadas precocemente a gente pode evitar situações muito mais graves posteriormente. O teste do pezinho é disponibilizado hoje pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e é obrigatório em todas as maternidades. Além disso, tem o teste do olhinho, que é um exame muito simples que consiste na identificação de um reflexo vermelho que aparece logo que você joga um feixe de luz no olho da criança e identifica doenças como a catarata, glaucoma congênito, retinoblastoma e o seu tratamento pode evitar, possivelmente, a cegueira na criança. Além disso tem o teste da orelhinha, também é um teste de triagem simples que visa detectar a presença de emissões otoacústicas, que podem evitar, se precocemente tratados, também a surdez. Existe o teste do coraçãozinho que este deve ser feito ainda na maternidade para detectar também cardiopatias congênitas graves. Além disso outros exames podem ser necessários a depender do exame físico da criança logo ao nascer e isso depende da avaliação do pediatra inicialmente nesta primeira consulta.

Viva Mais Viva Melhor – Bom, no início a gente falou do poder do leite materno para a saúde do bebê. Até quanto tempo, doutora, a mãe deve alimentar o seu filho apenas no peito?
Dra. Luciana Nunes – Hoje é preconizado pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Pediatria manter o aleitamento materno exclusivo até o sexto mês de vida e até os 2 anos de forma complementar, podendo até se estender além dos 2 anos.

Viva Mais Viva Melhor – Doutora, a gente sabe que amamentar muitas vezes não é lá uma tarefa muito simples quanto parece para algumas mães. O que dizer para uma mãe que tem dificuldade para amamentar?
Dra. Luciana Nunes – Sem dúvida! A amamentação não é fácil para todas as mulheres, algumas mulheres conseguem, por uma questão fisiológica, passar pelo processo de uma forma muito tranquila, mas para outras mães pode ser muito difícil amamentar. Inclusive eu fui uma das mães, uma testemunha viva, de como é difícil amamentar. Neste primeiro momento é importante que a mãe mantenha a calma, sabendo que é uma coisa que vai aos poucos se adaptando. Ela está num processo de aprendizagem e é importante que ela mantenha a calma para que a coisa aconteça de uma forma natural. Para tudo tem solução, converse com o seu pediatra, ele vai dar as orientações iniciais no consultório ou mesmo as vezes em casa, existem alguns grupos que podem ir em casa e orientar a forma de amamentar.

Viva Mais Viva Melhor – Doutora, é normal sentir dor nos seios ao amamentar? Se os mamilos por exemplo sangrarem, a mãe deve interromper a amamentação?
Dra. Luciana Nunes – É bem comum ter dor ao amamentar, principalmente se for uma mãe de primeira viagem. Por isso o preparo da mama para amamentação é muito importante durante o período de gestação. Quando o mamilo está ferido com certeza pode haver dor e pode ainda haver o sangramento e isso não é uma contraindicação para amamentar, a não ser que esta dor seja tamanha que isso pode prejudicar e tornar o processo tão sofrido que prejudique essa relação da mãe com o bebê. Então nestes casos é preciso avaliar com cuidado de uma forma individual junto com o pediatra.

Viva Mais Viva Melhor – Existe um número mínimo de mamadas ao dia? Quais são os sinais de alerta para saber se o bebê não está mamando o suficiente?
Dra. Luciana Nunes – Hoje a preconização é para a mamada ad libitum, que é um termo em latim que a gente usa e que quem determina a quantidade de mamada é o bebê. Ele tem um processo fisiológico do nascer e nestes primeiros dias ele fica bem sonolento. Em contrapartida nós temos também nos primeiros dias o colostro, que é um leite que tem uma grande quantidade de água e anticorpos, que são muito importantes para estes primeiros dias de vida, mas não tem uma quantidade grande de gordura. Então a quantidade do leite é uma quantidade menor e ele vai se adaptando à medida que o leite vai aumentando em quantidade. O que a gente não deve é passar de 4 a 5 horas, principalmente nestes primeiros dias de vida, já que o bebê não tem grandes quantidades de glicogênios, porque ele não armazenou glicogênios durante o período de gestação e eventualmente, principalmente em bebês de baixo peso, eles podem fazer hipoglicemia se ficarem em jejum por muitas horas. 

Então quais são os sinais de alerta? Os sinais de alerta são uma sonolência excessiva. Eu sempre oriento tentar acordar o bebê depois de 4 a 5 horas dele dormindo e a ausência de diurese. Observe a diurese do bebê. O bebê precisa fazer pelo menos 5 fraudas de xixi no dia. Está com muita pouca diurese? Preste atenção se não tem nenhum sinal de hipoglicemia.

Viva Mais Viva Melhor – Doutora, na sua opinião, estabelecer as horas de mamada pode atrapalhar esse processo de aleitamento? E no caso do recém-nascido estar dormindo, é indicado que acorde ele para mamar?
Dra. Luciana Nunes – Normalmente a gente não indica acordar o bebê, salvo nestes primeiros dias de vida, como eu acabei de explicar, depois de mais ou menos 4 a 5 horas. Eles normalmente, fisiologicamente, a criança acorda várias vezes ao longo do dia. A cada 2 a 3 horas ele acorda para mamar naturalmente. É importante respeitar esta fisiologia que é individual de cada bebê. Vai ter bebê que vai conseguir dormir períodos maiores e vai ter bebê que não. Então é importante observar esta fisiologia da criança.

Viva Mais Viva Melhor – A alimentação da mãe pode prejudicar o recém-nascido? Quais são os alimentos que devem ser retirados da dieta da mãe?
Dra. Luciana Nunes – A dieta da mãe que está amamentando deve ser uma dieta balanceada, com 5 refeições no dia, sem excessos. A gente orienta poucas restrições, principalmente a cafeína, que pode provocar uma irritabilidade no bebê, bebidas alcoólicas sem dúvida, são proscritas, não devem ser usadas durante a amamentação porque além de interferir na produção do leite ela também pode ser passada através do leite para o bebê. Também alimentos ricos em enxofre, por exemplo o feijão, que podem causar gases no bebê. Existem alguns outros alimentos que a gente tem até uma percepção na nossa experiência clínica, mas que na literatura médica não foi conseguido comprovar. Então é importante observar o que a mãe está comendo e como o bebê reage aquele alimento. Então alguns deles são o chocolate, pimenta, comidas com condimentos, estes alimentos as vezes podem provocar uma irritação e uma cólica no bebê também, então devem ser evitados. Além disso, é importante o aumento da ingestão de água para que você mantenha a produção de leite de uma forma adequada.

Viva Mais Viva Melhor – Doutora, o aleitamento materno pode transmitir algum tipo de infecção? Existem situações em que a mãe não deve amamentar?
Dra. Luciana Nunes – Existem algumas situações, nestes casos a gente precisa detectar desde o primeiro dia de vida. Existem por exemplo a transmissão do HIV que pode ser transmitido pelo leite. Outros como a hepatite B, a febre amarela, isso deve ser detectado ainda na maternidade para evitar desde o primeiro dia a amamentação.

Viva Mais Viva Melhor – O aleitamento pode interferir nas vacinas orais como a poliomielite e a rotavírus, doutora? 
Dra. Luciana Nunes – Não, não há interferência destas vacinas com o aleitamento materno, as crianças podem receber e devem receber a vacina mesmo amamentando, inclusive porque o próprio leite materno não consegue proteger 100% as crianças. O rotavírus, por exemplo, não consegue proteger. Então é importante que a criança seja vacinada mesmo estando amamentando.

Viva Mais Viva Melhor – Todas as crianças devem receber as mesmas vacinas independentemente de serem ou não alimentadas com o leite materno?
Dra. Luciana Nunes – Sim. Todas devem receber, as vacinas são importantes. Leite materno tem anticorpos que protegem contra algumas doenças infectocontagiosas, mas ele não tem a capacidade de transformar este anticorpo em um anticorpo de memória. Então é importante manter a vacinação para todas as crianças, independente de estar amamentando ou não.

Viva Mais Viva Melhor – Quais as vacinas que as crianças têm que tomar e com que idade?
Dra. Luciana Nunes – Na verdade, a pediatra precisa estar orientando regularmente nas consultas de rotina sobre as vacinas. Existe um calendário vacinal hoje já preconizado pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Pediatria em que você precisa fazer uma série de vacinas que são muitas, muito mais frequente no primeiro ano de vida, mas que precisa ser orientada a cada consulta, já que este calendário constantemente está sendo atualizado.

Viva Mais Viva Melhor – Doutora, algumas vacinas podem causar sintomas desagradáveis ao bebê, algum tipo de incômodo. Após esta aplicação que cuidados a mãe deve ter para se evitar este desconforto?
Dra. Luciana Nunes – É importante uma orientação do pediatra de uma forma individual para tentar evitar este desconforto. O que é mais importante é saber que a vacina pode causar tanto desconforto físico por dor no local da aplicação, como também sinais de febre. A mãe não precisa ficar preocupada se esta febre acontece nas primeiras 48 horas após a vacina. Além disso, manter febre é um sinal de preocupação. Então após 48 horas da aplicação da vacina a criança mantém febre procure um médico para ser avaliado.

Viva Mais Viva Melhor – É verdade que não se deve dar vacina na criança quando está doente?
Dra. Luciana Nunes – É verdade. A criança quando está doente ela tem sinais e sintomas que podem se confundir com reações normais que a vacina pode causar. Então se você aplica a vacina numa criança doente ela pode ter uma manifestação que vai causar uma confusão no diagnóstico da doença dela, esse é um dos motivos. Um outro motivo para não vacinar uma criança que está doente é na dificuldade que o organismo tem em promover esses anticorpos a partir da vacina.

Viva Mais Viva Melhor – Há problema em dar vacina depois que passou da data já programada no calendário?
Dra. Luciana Nunes – A gente deve evitar passar das datas, porque existem datas precisas para que a gente não exponha aquela criança a infecções. Porém se por algum motivo a criança estava doente e teve algum problema e não conseguir vacinar naquela data a gente deve tentar atualizar este cartão o mais breve possível. Não tem problema, ele pode ser revacinado num momento ou outro. Se houver alguma dúvida procure o seu pediatra.

Viva Mais Viva Melhor – Doutora, por que que virose é um diagnóstico tão comum em crianças? Como saber se o que a criança tem não é uma doença mais séria?
Dra. Luciana Nunes – Essa é uma polêmica muito grande, em parte por causa de um segmento inadequado dessas crianças nos consultórios de pediatria. O que acontece é que hoje a gente tem descrição de pelo menos uns 300 vírus diferentes que causam doenças na faixa etária pediátrica e, por serem crianças que não tiveram uma memória de imunidade, não foram expostas a estes vírus anteriormente porque são crianças, elas não têm anticorpos para se proteger da infecção. Então à medida que elas entram em contato pela primeira vez com o vírus elas fazem a infecção. Isso é muito comum na faixa etária pediátrica tornando o principal agente causador de infecções e de doenças nesta faixa etária. Portanto, é um grupo de doenças mais comum, mas que para nossa sorte ela é autolimitada. 

A criança que é saudável ela tem condição de se proteger de uma forma autolimitada. Ela mesma consegue promover a sua autodefesa, sem necessitar de um outro tratamento específico para a doença. Isso causa muita confusão porque são sinais e sintomas diferentes e que viram um diagnóstico global de virose contendo aí várias doenças diferentes. Por exemplo, rinofaringite que são os resfriados e gripes, ou a gastroenterite, então já é uma infecção gastrointestinal. Também são causadas por vírus e acabam sendo confundidas aí com outras doenças. O que é importante de a gente saber no quadro quando o filho está doente são os sinais de alerta para uma infecção mais grave. Que sinais são estes? Eu tenho uma febre por mais de 72 horas, eu tenho uma criança com estado geral ruim mesmo sem estar com febre, porque é comum quando a criança está com febre ficar abatida, mas a partir do momento em que saiu da febre ela deve melhorar o estado geral. Se é uma criança que mesmo sem febre mantém um estado geral ruim a gente precisa dar atenção. A diurese é importante, a criança precisa estar fazendo uma diurese boa. Se não tem vômitos tão repetidos, se são vômitos espaçados, a gente precisa avaliar esta criança. Manchas no corpo, para pensar em uma meningococcemia, uma doença mais grave e que pode ser muito rápida também. Na dúvida ligue para seu pediatra, converse com ele para não deixarmos escarpar nenhum problema mais grave.

Viva Mais Viva Melhor – Existem vacinas contra essas viroses habituais, doutora?
Dra. Luciana Nunes – Algumas vacinas sim, por exemplo o rotavírus que é um exemplo bem clássico. Ainda assim eu não consigo proteger para todos os sorotipos de rotavírus que tem. Então é comum eu ter vacinado meu filho para o rotavírus e ele ainda tem um rotavírus, porque ele pode ter um sorotipo que aquela vacina ainda não estava cobrindo. Então embora a gente tente proteger ao máximo com uma série de vacinas diferentes, ainda assim as crianças podem ter doenças e os vírus também estão em evolução, então eles vão aparecendo, cada vez mais novos e com perfis diferentes. Outro exemplo disso muito bom é o H1N1, o vírus da gripe, que todo ano a gente precisa preparar uma vacina nova para aquele perfil de vírus que circulou no ano anterior na nossa comunidade, então isso é muito comum.

Viva Mais Viva Melhor – Bom, doutora, pelo que você explicou existe aí um número de horas que deve ser considerado normal de um estado febril da criança, não é sempre que a criança tem uma manifestação de febre e que precisa procurar um médico. A partir de que temperatura ou de que tempo, para a gente reforçar isso, a mãe deve procurar o pediatra?
Dra. Luciana Nunes – Febre é muito comum na criança. Não só uma infecção que ela tem febre, por vários motivos ela pode ter febre. A gente falou aqui da vacina, mas existem outros casos também. É um sinal de alerta de que tem alguma coisa acontecendo no meu corpo. Eu preciso estar atento, mas eu não necessariamente preciso correr para uma emergência. Quando que a gente avalia um paciente que precisa ser examinado pelo médico e que precisa ter uma avaliação mais cuidadosa, talvez com exames de sangue inclusive? Eu preciso esperar mais ou menos em torno de 48 e 72 horas. Este é o limite que a gente diz que a grande maioria das infecções virais vão estar se resolvendo e aí sim eu consigo ver se tem algo a mais do que uma virose. Também posso levar em consideração os outros sintomas e os outros sinais de alerta que eu já comentei.

Viva Mais Viva Melhor – Bom, doutora, para finalizar, as vacinas para as crianças podem ser todas encontradas na rede pública? O que fazer quando as vacinas não estão disponíveis na rede pública, ou mesmo na privada? Qual sua recomendação?
Dra. Luciana Nunes – Hoje o Ministério da Saúde trouxe o calendário vacinal para a rede pública muito próximo ao que a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda e isso foi uma evolução fantástica destes últimos anos que a gente conseguiu observar. A grande maioria das vacinas realmente já está disponibilizada na rede pública. Este ano em especial tivemos um problema muito grande com as vacinas, principalmente da gripe, que a gente não conseguiu encontrar nem na rede pública nem na privada. O que eu acredito que teve um pânico na sociedade em relação ao surto de gripe e isso criou um problema muito sério, inclusive porque a indústria farmacêutica que até tinha interesse em vender não esperava aquela quantidade de vacinas. Então é importante estar atento as orientações do pediatra, as orientações do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria, para que isso não seja um pânico geral para a população. A gente precisa estar atenta aos critérios, porque existem algumas crianças que são importantes a vacinação por questão de imunidade, outras nem tanto. Então é preciso seguir uma rotina para que se evite este tipo de situação que tivemos este ano. Por outro lado, o que a gente pode fazer no momento em que não se tem a vacina é tentar proteger. Evitar locais com muita gente, um aglomerado de pessoas, ou locais que não tenha ventilação adequada para que se evite este contato com o vírus da gripe que possa estar circulando naquele ambiente.

Viva Mais Viva Melhor – Conversamos com a médica Luciana Nunes, especialista em pediatria. Doutora, muito obrigada e até a próxima.