NOSSAS ENTREVISTAS

Tema: Joelhos

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Olga Goulart – Uma das mais importantes articulações do corpo, o joelho é também uma das regiões que mais sofrem lesões. Pancadas, torções, excesso do uso são alguns dos problemas que mais acometem os joelhos. Com os ligamentos, estruturas que funcionam para dar estabilidade a articulação não é diferente. Podem ocorrer situações traumáticas que gerem também grande prejuízo funcional e que necessitam de atenção médica. Quem conversa conosco sobre o assunto é o doutor Pedro Bastos, especialista em ortopedia e traumatologia.

Doutor, qual que é a importância dos joelhos?

Dr. Pedro Bastos – O joelho hoje é a principal articulação do membro inferior. Você vê que ela fica no meio da perna, entre a coxa e a perna na verdade, ou seja, você já imagina o quanto ela é exigida e o quanto ela vai ser requisitada. Em termos biomecânicos ela é uma das mais complexas no corpo, sendo assim a maior articulação do corpo humano, tendo importância muito significativa nos movimentos corporais. Ela é composta pelos ossos do fêmur, da tíbia e da patela, conectados principalmente por 4 ligamentos que são estabilizadores estáticos, aqueles que não se mexem, e os músculos que são estabilizadores dinâmicos, que são os que se mexem, tendo como principais movimentos flexão e extensão que é dobrar e esticar o joelho, mas ele ainda permite uma leve rotação lateral e medial.

Olga Goulart – Quais são os problemas mais comuns no joelho, doutor?

Dr. Pedro Bastos – O joelho é muito vulnerável aos traumas diretos e principalmente indiretos, sendo uma das áreas que mais sofrem lesões no corpo humano. No dia-a-dia diferentes ocasiões podem favorecer ao aparecimento de patologias como acidente ou posturas incorretas, mas é na prática esportiva que acontece a maioria das lesões. As principais são lesão do ligamento cruzado anterior, lesão do ligamento cruzado posterior, a luxação patelar, a condromalácia patelar que é muito comum em mulheres e enche o ambulatório e o consultório de qualquer cirurgião de joelho, a artrose de joelho, geralmente em pacientes mais idosos ou pacientes que tiveram algum acidente de carro ou de moto, síndrome do corredor, que é parecida com a condromalácia, tendinite patelar, lesões no menisco, cisto de Baker e uma série de outras.

Olga Goulart – O quê que acontece quando uma pessoa rompe um ou mais ligamentos do joelho?

Dr. Pedro Bastos – Os sintomas podem ser mais evidentes em alguns pacientes e menos em outros. Isso se deve principalmente ao nível de atividade física e a musculatura que o paciente tem que estabiliza a articulação. Sintomas devem ser divididos em agudos e crônicos. Sendo que na fase aguda os principais sintomas são o dor, limitação funcional que é a limitação do movimento, o inchaço que é o edema, a vermelhidão, calor no joelho basicamente típico de inflamação. Depois de mais ou menos 5 a 7 dias de lesão a dor e o inchaço reduzem e os sintomas diminuem parcialmente. O paciente mantém agora então os sintomas de instabilidade que é a frouxidão do joelho e isso dificulta ele fazer as atividades de lazer e até atividades laborativas do trabalho. A instabilidade no futuro acaba lesando outras estruturas do joelho, é como uma peça danificada dentro de um motor, ela vai danificar o motor inteiro. Então se você tem uma lesão no ligamento, ela vai lesar o menisco, ela vai fazer uma lesão condral, ela vai lesar outros ligamentos e posteriormente se o paciente não tratar ele vai ter uma artrose muito avançada. Tem uma maneira simples de explicar a importância dele que é você imaginar uma cadeira com 4 pernas ou 4 pilares para segurar, se você tiver 3 pernas a cadeira também fica em pé, mas se você encosta, qualquer forcinha a mais ela cai. É a mesma coisa, você consegue trabalhar, consegue fazer suas atividades, até alguns esportes, porém se você forçar um pouquinho a mais você tem sintomas e volta tudo de novo e você pode ter problemas maiores.

Olga Goulart – De fato, o rompimento do ligamento cruzado anterior é a causa maior de procedimento cirúrgico ortopédico no Brasil?

Dr. Pedro Bastos – De certa maneira sim, de certa maneira que eu falo é não urgente, ou seja, o que a gente chama de uma cirurgia eletiva. As incidências de lesão vêm crescendo anualmente e isso se deve a maior participação dos esportes de pacientes de todas as faixas etárias, tanto os mais jovens quanto os mais velhos. A incidência exata de lesões do LCA (ligamento cruzado anterior) é desconhecida, mas estima-se que por volta de 60 mil novas lesões para cada 100 mil pessoas acontecem a cada ano nos Estados Unidos, isso gera 200 mil novas cirurgias a cada ano, isso é uma epidemiologia que a gente tem nos Estados Unidos, então você pode fazer uma relação com o brasileiro também. Em geral, os pacientes que mais têm lesão são da faixa etária dos 15 aos 25 anos, porém hoje também com idosos cada vez mais ativos e cada vez mais atletas e saudáveis, pacientes acima dos 50 e até mesmo com 60 anos têm lesão de LCA, que antigamente era praticamente proibitiva e hoje têm alguns pacientes muito bem selecionados que você faz. Relacionada a prática esportiva geralmente trauma indireto. Com relação ao sexo masculino e feminino é discutível por conta de um valor absoluto e relativo, valor absoluto é mais homens, valor relativo é mais mulheres, ou seja, se for contar só mulheres elas lesam 6 a 8 vezes mais o LCA do que os homens. Apenas 30% dos casos são relacionados a traumas diretos e algumas vezes relacionados a desaceleração e roteamento, que é quando você gira o joelho sobre ele mesmo, que é a lesão principal na hora que você joga futebol.

Olga Goulart – Será que essa relação tem a ver com o fato de o Brasil ser conhecido como o país do futebol?

Dr. Pedro Bastos – Com certeza! No Brasil o maior número de lesões no esporte é associado a futebol, mas pelo esporte ser o mais popular aqui. Em outros países como nos Estados Unidos, a lesão de LCA está muito associada ao futebol americano, na Suíça à prática do esqui e na África do Sul ao rúgbi. Ou seja, diversas outras modalidades esportivas acabam também gerando a lesão de LCA. Se você prestar atenção atletas como Ronaldo, Ganso e muitos outros já sofreram com isso, porém é muito mais comum em atletas amadores, principalmente naqueles que fazem prática de futebol de salão, em quadras esportivas e pior ainda naqueles que fazem o jogo nas quadras com gramas sintéticas, aquilo ali é a que tem maior número de lesões de LCA.

Olga Goulart – Quem não pratica esporte também pode lesionar um ligamento de joelho?

Dr. Pedro Bastos – Sem dúvida! Sedentarismo hoje é o principal responsável pelo desequilíbrio e fraqueza muscular. Qualquer trauma direto ou indireto, ou seja, torsional sobre o joelho pode acarretar lesão. Lembre-se, os músculos são estabilizadores dinâmicos sobre o joelho, eles têm importância na estabilização assim como os ligamentos, caso eles estejam fracos, qualquer coisa que saia da rotina, que force um pouco mais o joelho ele vai acabar sofrendo. É aquela coisa, se você vai carregar um peso com uma corda, se a corda for fraca ela vai partir. Se você for carregar aquele mesmo peso com uma corda mais forte ela vai sustentar o peso e você não vai ter problema. É a mesma coisa, se você tiver uma musculatura boa, a sua chance de você ter lesão é muito menor do que se você não tiver o preparo físico adequado.

Olga Goulart – O rompimento de um ligamento, doutor, é sempre sintomático? O quê que a pessoa sente?

Dr. Pedro Bastos – Sinais e sintomas decorrente de uma lesão no ligamento cruzado varia muito de pessoa para pessoa. Elas dependem da intensidade do trauma, da existência de lesões associadas, do biotipo da pessoa, da sensibilidade do paciente à dor e da cronicidade da lesão. É comum no momento da lesão o paciente ouvir um estalo que é percebido só por ele ou pelas pessoas que estão ao redor. A dor geralmente é intensa e obriga o paciente a interromper as suas atividades, ele tem dificuldade em apoiar o pé no chão e ele precisa de auxílio de alguma outra pessoa ou de algum artefato que esteja próximo para ele poder caminhar, o inchaço apresenta em quase todos os casos, notado logo na hora da torção ou então no dia seguinte, o paciente tem dificuldade para esticar e dobrar o joelho, ou seja, para fletir ou estender e os sintomas em geral posteriormente a fase aguda eles diminuem após 5 a 7 dias. Após estes 5 a 7 dias aí ele vai manter apenas a sensação de dor, sensação de frouxidão, sensação de falseio em lesões associadas e não vai conseguir fazer suas atividades normalmente.

Olga Goulart – Como que é feito o diagnóstico, doutor, e qual é o profissional mais adequado para cuidar destes casos?

Dr. Pedro Bastos – O profissional mais adequado é o ortopedista, que já está habituado com o tipo de lesão. Na hora que tem a lesão e que vai passar na primeira consulta ou consulta de emergência, dificilmente se consegue comprovar a lesão de LCA, porque os sintomas são tão avançados, a lesão tão grande e tem um inchaço que os testes específicos do exame físico não conseguem determinar. Pode ser feita uma punção para aliviar a dor. Em geral, as lesões de LCA têm uma saída de sangue que é a hemartrose, porque quando o ligamento rompe ele sangra. Mas posteriormente a isso você faz uma imobilização, usa anti-inflamatório, tira o paciente da fase aguda e posteriormente quando ele volta no retorno, você vai fazer os testes específicos que vão sugerir uma lesão seja no LCA ou seja de outros ligamentos ou lesões associadas e você vai confirmar isso com exame de ressonância magnética. Outros exames também podem sugerir lesão, mas o exame padrão seria a ressonância magnética hoje.

Olga Goulart – Quais as opções de tratamento para ruptura do ligamento do joelho?

Dr. Pedro Bastos – Existem basicamente dois métodos de tratamentos. O método sem cirurgia conhecido como método conservador e o tratamento com cirurgia. Após o diagnóstico devem ser discutidas as vantagens e desvantagens de cada tratamento e suas implicações para o paciente. Os seguintes aspectos devem ser levados em conta, lesões associadas, a demanda do paciente, a idade do paciente, principalmente atenção naqueles pacientes que são idosos e ativos e naqueles que são jovens e na fase de crescimento. O tratamento é personalizado a cada paciente, a decisão caberá ao paciente. Costumo dizer que ele que faz indicação de cirurgia ou não. A cirurgia hoje é um procedimento muito rápido, é uma cirurgia muito segura e com certeza faz com que o paciente retorne suas atividades habituais e laborativas com muita brevidade.

Olga Goulart – Doutor, você já citou o fortalecimento muscular, a questão do alongamento também previne a ruptura do ligamento?

Dr. Pedro Bastos – Sim, sem dúvida! A preparação física para o esporte, ou seja, o condicionamento físico previne sim a lesão do LCA, assim como lesões de outras estruturas tanto do joelho como de outras articulações. O paciente com musculatura ativa, forte e alongada, em geral, não evolui com lesão. E a medicina esportiva já percebeu isso há alguns anos. Perceba que os jogadores brasileiros quando saem daqui para jogar na Europa ou em outros países saem daqui bem magros e voltam bem fortes, na gíria popular “bombado”. Praticamente hoje é difícil ouvir que um paciente teve uma lesão, que precisou fazer uma cirurgia e que precisou se afastar como era no tempo de Pelé, ou seja, antigamente o pessoal era bem magro porque achava que teria mais habilidades, só que tinha muita lesão. Hoje o paciente é mais forte, continua habilidoso, só que sem lesões. 

Olga Goulart – É possível que o ligamento do joelho se recupere sozinho sem tratamento?

Dr. Pedro Bastos – Não. O LCA lesionado nunca vai curar ou cicatrizar sem cirurgia, é impossível!

Olga Goulart – Os aparelhos de fisioterapia podem ser úteis para facilitar a cicatrização e combater a dor das lesões de ligamento do joelho, doutor?

Dr. Pedro Bastos – Sem dúvida. A fisioterapia é imprescindível para o resultado da cirurgia, corresponde chegando até 50% do tratamento. É importante tanto a fisioterapia pré quanto pós-operatória. É um processo que depende muito do fisioterapeuta, ele deve estar familiarizado com o tratamento, seguir os protocolos que já existem, haver uma sintonia do médico com o fisioterapeuta e a mesma ainda deve ser iniciada em ambiente hospitalar, sendo que nesta fase o objetivo será a redução do edema e o ganho da mobilidade e o início do treino de marcha e depois ajudará na recuperação de amplitude articular,  flexo-extensão, analgesia e fortalecimento muscular.

Olga Goulart – Quais os sinais de melhora, doutor, ou de piora dos problemas de ligamentos do joelho?

Dr. Pedro Bastos – É bem tranquilo você saber que não existe uma melhora ou uma piora progressiva, ele não vai melhorando ou ele vai piorando, ou ele fica bom ou ele não fica. Ou o joelho está estável ou está instável, é uma patologia que é muito clara e fácil de ver. Simplesmente o paciente volta a andar sem limitações, volta a fazer suas atividades, volta a ter segurança no joelho, não sente mais dor, não sente mais frouxidão, ou seja, ele volta a ter simplesmente uma vida normal.

Olga Goulart – Dada a importância desta articulação, nossa pergunta final é: como cuidar dos joelhos, doutor?

Dr. Pedro Bastos – Lógico, posso dar algumas dicas para manter os joelhos saudáveis. Pratique esporte, faça orientação com o treinador, não simplesmente faça o que você acha que deve ser feito, fortaleça o joelho, não exagere no treino, controle seu peso e escolha bem o seu calçado, melhore seu equilíbrio, tenha atenção e foco na hora da atividade física, trabalhe outras articulações e principalmente vença o sedentarismo.

Olga Goulart – Maravilha! Conversamos com o médico, doutor Pedro Bastos, especialista em ortopedia e traumatologia. Doutor, muito obrigada e até a próxima.

Dr. Pedro Bastos – Gostaria de agradecer a oportunidade e espero ter esclarecido de forma clara e objetiva as dúvidas do ouvinte, espero de verdade que ninguém evolua com qualquer tipo de lesão, mas me coloco disponível para ajudar. Sempre conheça seu médico, pesquise sobre ele, veja se ele realmente é cirurgião de joelho, entre na internet, entre na Sociedade Brasileira de cirurgia de joelho, veja se ele está incluso, veja a qualificação do seu médico para você ao invés de resolver o seu problema não acabar criando outro.