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Tema: Hepatologia

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Viva Mais Viva Melhor – Localizada à direita da cavidade abdominal, o fígado é o órgão responsável por diversas funções vitais do nosso organismo. Ele pode ser acometido por várias doenças, dentre elas as hepatites, que podem ser causadas por vírus, por alcoolismo ou mesmo ingestão inadequada de medicamentos. Quem conversa conosco hoje é o médico especialista em gastroenterologia e hepatologia doutor André Lyra, que vai esclarecer as dúvidas sobre o assunto.

Doutor, vamos explicar primeiramente aos nossos ouvintes quais são as doenças mais comuns do fígado. 

Dr. André Lyra – Olá Olga. As doenças do fígado podem ser divididas em agudas e crônicas. Dentre as enfermidades hepáticas agudas as hepatites agudas virais A e B e as hepatites medicamentosas são as mais comuns. Dentre as doenças crônicas do fígado as mais comuns são a hepatite C, doença alcoólica do fígado, doença hepática gordurosa não alcoólica, aquela que envolve a presença de esteatose hepática e a hepatite B. Evidentemente que existem diversas outras doenças do fígado menos frequentes, como a hepatite autoimune e a doença de Wilson, dentre outras.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, quando o paciente deve procurar um hepatologista?

Dr. André Lyra – Nos quadros clássicos de hepatite aguda viral A e B não é mandatório procurar um hepatologista e o clínico geral habitualmente pode conduzir o paciente. Quando o paciente é diagnosticado com uma doença crônica do fígado é importante ele ouvir a opinião do especialista.

Viva Mais Viva Melhor – O que provoca a hepatite, doutor, quais são as diferenças entre os tipos de hepatite?

Dr. André Lyra – Hepatite significa inflamação do fígado. Esta inflamação pode ser aguda ou crônica. Nas hepatites agudas via de regra o fígado se regenera após a agressão e retorna ao seu estado prévio, mantendo sua arquitetura preservada. Nas hepatites crônicas por sua vez a agressão lenta e contínua ao órgão provoca uma regeneração inadequada sobre a forma de fibrose, que são cicatrizes no fígado. Com o tempo, ao longo de 10 a 20 anos e com a permanência do estímulo do fator causal, estas cicatrizes ficam tão intensas que passam a ocupar a maior parte do órgão que é chamada de cirrose hepática. E eu mencionei anteriormente as diversas causas de hepatite aguda e crônica. A diferença principal entre elas é o fator causal, que pode ser viral, medicamentoso ou autoimune em linhas gerais. Há alguns casos em que este fator causal permanece cronicamente no organismo e em outros ele é eliminado logo na fase aguda. A hepatite C, por exemplo, na maioria das vezes infecta cronicamente o indivíduo após o quadro agudo, enquanto na hepatite B apenas uma minoria permanece cronicamente infectada após a hepatite aguda. Na hepatite A nunca ocorre infecção crônica.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, quais são os principais sintomas que as hepatites podem causar? 

Dr. André Lyra – Os sintomas clássicos das hepatites agudas virais são mal-estar geral, se assemelhando a um quadro viral, falta de apetite, astenia (moleza) febre, icterícia (olhos amarelos) e colúria (urina escura parecendo Coca-Cola). A hepatite C ou B habitualmente são assintomáticas. Os pacientes terminam por ter um diagnóstico estabelecido na maioria das vezes durante a realização de exames de rotina.

Viva Mais Viva Melhor – Dentre os tipos de hepatite, qual deles precisa de uma atenção maior? 

Dr. André Lyra – A hepatite crônica C tem prevalência significativa no nosso meio e no mundo em geral. Cerca de 1,5% da população brasileira é infectada cronicamente pelo vírus da hepatite C, ou seja, cerca de 3 milhões de pessoas. Destes, aproximadamente 10 a 20% irão evoluir para uma cirrose hepática ao longo de 20 anos. Portanto, a hepatite C é uma doença que merece uma atenção especial. Por isso que novas drogas foram desenvolvidas e atualmente, com os novos esquemas terapêuticos orais, a cura ocorre em mais de 90% dos casos. Evidentemente que todas as outras formas de hepatite crônica, como por exemplo a hepatite crônica B e a hepatite autoimune para destacar algumas, por serem capazes de levar à cirrose hepática se não tratadas, merecem atenção especial também.

Viva Mais Viva Melhor – Quem já teve um diagnóstico de hepatite pode doar sangue, doutor?

Dr. André Lyra – Por uma questão de segurança, os bancos de sangue não aceitam doadores que tiveram a hepatite após os 11 anos de idade. Quem tem marcadores sorológicos das hepatites virais B e C presentes, sejam marcadores de infecção atual ou passada, também não podem doar sangue.

Viva Mais Viva Melhor – A hepatite pode ter relação com outras doenças?

Dr. André Lyra – Sim. A hepatite C, para exemplificar, pode vir associada a doenças dermatológicas e alterações vasculares, como por exemplo a crioglobulinemia que é uma doença vascular que causa dores nas articulações, porfiria cutânea tarda, que aparece em áreas expostas ao sol, lesões na pele tais como mãos e rosto, o líquen plano, síndrome de Sjögren que é a doença autoimune que diminui a produção de lágrimas e saliva, prurido (coceira) também pode estar associada a hepatite C, urticária e psoríase, dentre outras. A hepatite C pode ainda vir associada a doenças renais, como as glomerulonefrite e síndrome nefrótica. O diabetes mellitus é mais comum em quem tem hepatite C do que na população geral. É válido ressaltar que a hepatite B também pode se associar a fenômenos vasculares e doenças renais e a hepatite autoimune pode estar associada a outras doenças autoimunes extra-hepáticas, em particular, doenças tireoidianas e artrite reumatoide.

Viva Mais Viva Melhor – O quê que é a esteatose hepática e qual é o papel da obesidade nestas doenças do fígado, doutor?

Dr. André Lyra – A esteatose hepática caracteriza-se por acúmulo de gordura no fígado. Ela pode ser causada pela doença alcoólica do fígado ou pela doença hepática gordurosa não alcóolica. Esta última condição, a doença hepática gordurosa não alcóolica foi descrita pela primeira vez na década de 80. A esteatose hepática chamou a atenção dos médicos naquela década quando coincidiu com a epidemia de obesidade nos Estados Unidos. Portanto, há uma associação bem evidente entre obesidade e esta doença hepática. Outros fatores de risco para o surgimento da doença hepática gordurosa não alcoólica são a hipertensão arterial sistêmica, o diabetes mellitus e a dislipidemia. A maioria dos pacientes com esteatose hepática não terão maiores consequências em relação ao fígado. Todavia, cerca de 5 a 10% destes pacientes podem evoluir com esteato-hepatite e até mesmo cirrose hepática ao longo de vários anos. Como não sabemos exatamente quem vai evoluir de forma desfavorável ou não, é importante que todos sejam tratados. 

Infelizmente não existe uma droga eficaz no tratamento da esteatose hepática ou esteato-hepatite. Em casos particularizados pode ser usada a vitamina E ou a pioglitazona, embora os resultados sejam bem abaixo do desejável com estas medicações. O que comprovadamente melhora a esteatose hepática e esteato-hepatite não alcoólica, de forma significativa, é a ingestão de uma dieta adequada, pobre em gordura saturada e carboidratos, atividade física regular e perda de peso.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor André, a vida corrida por vezes nos impede que as orientações para um reforço vacinal sejam cumpridas. É correto afirmar que a imunização para a hepatite B só é efetiva quando se tomam as 3 doses com o intervalo recomendado?

Dr. André Lyra – O correto é que a vacina da hepatite B seja aplicada em 3 doses em intervalos recomendados porque desta forma as chances de êxito são elevadas. É lógico que existem casos de indivíduos que tomaram apenas duas ou até mesmo uma dose e ainda assim obtiveram sucesso, mas as chances de isso ocorrer são bem menores, de forma que é importante seguir a orientação correta de 3 doses. 

Viva Mais Viva Melhor – Qual que é a relação do consumo com a bebida alcoólica com a hepatite? 

Dr. André Lyra – Indivíduos que são portadores crônicos da hepatite C e de qualquer outra forma de doença hepática, quando expostos a quantidade de álcool de forma relativamente constante, mesmo que pequenas, têm mais chances de evoluírem com fibrose hepática acentuada. Portanto, devem abolir o uso de bebidas alcoólicas. É válido ressaltar que a doença alcoólica do fígado caracterizada por uma ingestão constante e significativa de bebidas alcoólicas se inicia na forma de uma esteato-hepatite para então progredir para uma cirrose hepática ao longo dos anos.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, as hepatites medicamentosas podem desaparecer após a interrupção do uso desse medicamento e quais são os medicamentos ou as substâncias que podem gerar este tipo de problema?

Dr. André Lyra – As hepatites medicamentosas podem ocorrer em decorrência da utilização de qualquer droga. Evidentemente que existem medicações que apresentam chances mais elevadas de provocarem hepatite do que outras. Eu destacaria os anabolizantes e a ingestão excessiva de chás como causas de hepatites medicamentosas evitáveis, uma vez que não precisamos usar estas substâncias. Também é válido lembrar que o uso abusivo de paracetamol (acetaminofeno) pode provocar a hepatite aguda grave, principalmente se associada ao uso de bebida alcoólica. Uso de anti-inflamatórios não hormonais, anticonvulsivantes e mesmo antibióticos podem provocar a hepatite. Portanto, o uso de medicações em geral deve ser feito analisando a necessidade do indivíduo. Uma vez suspensa a medicação que provocou a hepatite em uma determinada pessoa, em via de regra o quadro evolui para cura, salvo raríssimas exceções. Todavia, o tempo para progressão para cura varia entre os indivíduos e pode demorar vários meses.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, muito se fala sobre os efeitos de produtos comercializados como “protetores hepáticos” e detoxificantes. Existe alguma droga que efetivamente proteja o fígado contra as agressões do dia-a-dia?

Dr. André Lyra – Infelizmente, dentre essas drogas ditas hepatoprotetoras, nenhuma delas comprovadamente levam a proteção do fígado contra agressões do dia-a-dia.

Viva Mais Viva Melhor – É correto afirmar que apenas 15 a 30% das pessoas infectadas pelo vírus da hepatite C se curam espontaneamente, enquanto 70 a 85% evoluem para hepatite crônica?

Dr. André Lyra – Sim. A proporção de indivíduos que curam espontaneamente após uma infecção aguda por hepatite C é realmente de aproximadamente entre 20 e 40%. Portanto, a maioria permanecerá cronicamente infectada.

Viva Mais Viva Melhor – E quanto aos outros tipos de hepatite, a cura espontânea também pode ser observada? E em que proporção?

Dr. André Lyra – No caso da hepatite aguda B apenas 5 a 10% dos adultos evoluirão com infecção crônica. Ou seja, 90 a 95% dos adultos apresentarão a cura espontânea do vírus. Por outro lado, os casos da transmissão vertical da hepatite B, quando o recém-nascido não faz uso da vacina e da imunoglobulina protetora, as chances de transmissão da mãe para o bebê são de 90%. Por este motivo, atualmente todo recém-nascido de mãe que tem infecção crônica pelo vírus da hepatite B deve receber a vacina imunoglobulina contra o vírus nas primeiras horas após o nascimento.

Viva Mais Viva Melhor – Agora para a gente finalizar, qual a melhor maneira de proteger o fígado?

Dr. André Lyra – A melhor maneira de proteger o fígado é evitando atitudes de risco que possam provocar o seu dano. Portanto, é importante evitar o uso abusivo de bebidas alcoólicas, o ganho excessivo de peso, a ingestão abusiva de alimentos não saudáveis e ricos em gorduras saturadas e carboidratos, evitar o sedentarismo, o compartilhamento de materiais perfurocortantes, bem como a prática de sexo não seguro, que pode transmitir a hepatite B principalmente. Eu destacaria ainda que o uso de anabolizantes tem elevado o potencial de provocar a hepatite aguda grave e culminar com a morte, de forma que considero a sua utilização proibitiva. Para os pacientes que já têm alguma doença crônica do fígado é essencial manter um acompanhamento regular com seu médico.

Viva Mais Viva Melhor – Conversamos com o médico André Lyra, especialista em hepatologia. Doutor, muito obrigada e até a próxima.