NOSSAS ENTREVISTAS

Tema: Glaucoma

Olga Goulart – De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada ano são registrados 2,4 milhões de novos casos de glaucoma no mundo. Por não apresentar sintomas em sua fase inicial, a doença, que é provocada pelo aumento da pressão do olho, é capaz de causar cegueira se não for tratada a tempo. Apesar de não ter cura, ela pode ser controlada com colírios, com laser e até intervenção cirúrgica. Um dos tratamentos mais modernos para o glaucoma é a trabeculoplastia seletiva a laser. É um procedimento seguro, não invasivo e realizado em consultório. Para esclarecer as dúvidas sobre este assunto, quem conversa conosco é o doutor Honassys Rocha, especialista em oftalmologia.

Doutor, vamos explicar primeiramente o que é o glaucoma e de que forma ele pode se desenvolver nas pessoas, quais são os tipos de glaucoma.

Dr. Honassys Rocha – Olga, é um prazer falar contigo. O glaucoma é uma doença associada a perda do campo de visão de fora para dentro. Na maioria dos casos essa lesão é fruto da pressão intraocular alta, o que impede a nutrição sanguínea do nervo de forma adequada. Ela pode ser dos tipos de ângulo aberto ou de ângulo fechado. Sendo que o tipo ângulo aberto é o que está presente na maioria dos casos.

Olga Goulart – Doutor, quais são os sinais e os sintomas do glaucoma?

Dr. Honassys Rocha – Usualmente o glaucoma não apresenta nenhum sinal ou sintoma. Alguns poucos casos se evidenciam através da dor. Estes casos estão relacionados a pressão do olho muito alta e geralmente quando o paciente nos procura ele já tem uma lesão importante no campo visual. Olga, ainda esta semana eu atendi uma paciente exatamente neste quadro e é muito dramático, é muito marcante e esses casos que apresentam sintomas geralmente demandam tratamento tempestivo e um tratamento muito rápido para salvar esta visão que está sofrendo.

Olga Goulart – Bom, por não apresentar sintomas no estágio inicial, como é que faz para diagnosticar o glaucoma precocemente, doutor?

Dr. Honassys Rocha – A melhor forma de diagnosticar precocemente o glaucoma é através da visita regular ao médico oftalmologista, principalmente daquelas pessoas que têm idade acima de 40 anos, história familiar positiva para essa doença, portadores de miopia e pessoas de pele negra.

Olga Goulart – O quê que é pressão intraocular, tem alguma relação com a pressão arterial, doutor?

Dr. Honassys Rocha – Olhe só Olga, isso é muito interessante, a gente pode fazer uma analogia. Imagine uma bola de futebol que não tem pressão, ela vai ser murcha, portanto ela não vai ter nenhuma utilidade. Com a pressão intraocular é a mesma coisa, se não houver esta pressão as estruturas não são irrigadas adequadamente e o olho não vai ter nenhuma vitalidade. Em relação a questão da pressão arterial, não há nenhum estudo que demonstre existir uma relação segura entre estes níveis de pressão e a pressão do olho. O que existe é uma relação estatística entre glaucoma e portadores de pressão arterial alta ou baixa.

Olga Goulart – E qual que é a pressão intraocular considerada normal, ela precisa ser inclusive igual em ambos os olhos?

Dr. Honassys Rocha – A pressão considerada normal ela usualmente varia entre 10 e 20 mmHg. Pressões de 22 mmHg ou mais são consideradas altas. Normalmente tem uma pequena diferente entre os olhos, isso é perfeitamente normal.

Olga Goulart – Bom, o senhor sugeriu visitas regulares ao oftalmologista para se detectar precocemente. Qual o intervalo ideal entre consultas e exames para o controle do glaucoma, por exemplo?

Dr. Honassys Rocha – Aí nós podemos dividir entre 2 grupos inicialmente, vamos considerar as pessoas que têm o glaucoma e as pessoas que não têm o diagnóstico desta doença. Para estas pessoas que não tem o diagnóstico, eu indico uma avaliação oftalmológica uma vez ao ano, uma avaliação preventiva, porque não só glaucoma pode ser diagnosticado. E para as pessoas que já tem o diagnóstico de glaucoma, nós devemos individualizar, nós devemos definir o intervalo de acordo com as lesões que se apresentam tanto no nervo quanto no campo visual.

Olga Goulart – Qualquer pessoa pode desenvolver um glaucoma ou existem pessoas mais propensas a desenvolver a doença?

Dr. Honassys Rocha – Sim, Olga. Qualquer pessoa em qualquer idade pode desenvolver o glaucoma, imagine que um bebê já pode nascer com glaucoma, daí a importância de um exame conhecido como teste do olhinho, um exame que usualmente é feito em todos os recém-nascidos que dentre outras doenças podemos diagnosticar precocemente o glaucoma. Mas o mais comum é que o glaucoma se apresente em pessoas que tenham uma idade acima de 40 anos ou que tenham uma história familiar positiva, pele negra, diagnóstico de miopia, diabetes, hipertensão arterial ou de hipotensão arterial.

Olga Goulart – Doutor, em termos de tratamento, quais são as opções disponíveis para controlar o glaucoma?

Dr. Honassys Rocha – O tratamento do glaucoma pode ser feito a laser, sendo o principal o SLT ou trabeculoplastia seletiva a laser e também através de colírios. A função destes tratamentos é reduzir a pressão intraocular. Caso essas duas modalidades de tratamento não sejam suficientes para controle da doença, nós podemos, em alguns casos, lançar mão da cirurgia.

Olga Goulart – E como é esse novo tratamento para o glaucoma, a trabeculoplastia seletiva a laser.

Dr. Honassys Rocha – A trabeculoplastia seletiva a laser é uma técnica de tratamento de glaucoma que permite substituir o colírio por cerca de 18 meses. Esta técnica existe nos Estados Unidos a mais de uma década e tivemos a felicidade de trazê-la para a Bahia em 2014. O laser atua melhorando o sistema de drenagem do líquido que dá pressão ao olho. Imagine a pressão do olho como sendo fruto de uma torneira aberta e um ralo drenando esta pressão, o laser vai atuar sobre este ralo limpando este ralo e fazendo com que ele funcione melhor e daí a pressão intraocular é reduzida.

Olga Goulart – E como proceder, doutor, após a realização da SLT, é preciso dar continuidade ao tratamento utilizando colírios?

Dr. Honassys Rocha – Olhe só, Olga, a trabeculoplastia seletiva a laser é um procedimento ambulatorial, não há necessidade de internação hospitalar. O paciente pode trabalhar normalmente após o procedimento. Nós usualmente prescrevemos um colírio para tratar a dor quando ela acontece e as revisões são muito importantes e elas ocorrem no dia seguinte e na semana seguinte. O laser pode ser combinado com o colírio e usualmente ele reduz a necessidade destes colírios. É muito importante que o paciente continue a fazer suas visitas periódicas ao seu médico oftalmologista para verificar se existe uma necessidade de reaplicação do laser ou da modificação da prescrição. É a mesma coisa que o tratamento de colírios em termos de acompanhamento. É importante que ele vá periodicamente para que se faça o ajuste do tratamento.

Olga Goulart – Este tratamento pode ter algum tipo de complicação, doutor?

Dr. Honassys Rocha – Esse tratamento (SLT) é praticamente isento de complicações. Quando ocorre algum tipo de complicação geralmente corresponde a um aumento de pressão que é transitório. Esse aumento de pressão é perfeitamente tratável e indica, principalmente, a importância das revisões, a gente não pode simplesmente fazer, o paciente não pode receber aplicação do laser e achar que está tudo bem, ele precisa ir no dia seguinte e na semana seguinte para fazer o controle do pós-laser.

Olga Goulart – Doutor, o glaucoma pode deixar o paciente com cegueira irreversível?

Dr. Honassys Rocha – Sim, Olga. O glaucoma é uma importante causa de cegueira irreversível, se não a principal. Daí a importância da prevenção. Já que não podemos reverter o glaucoma, é muito importante conter a perda do campo visual.

Olga Goulart – Como nós falamos inicialmente, o glaucoma apesar de não ter cura, mas tem um bom controle e permite ao paciente uma qualidade de vida boa, não é?

Dr. Honassys Rocha – Exatamente. E a gente pode comparar a uma hipertensão arterial, a uma diabetes, que são doenças nas quais a gente tem uma manutenção do tratamento, a gente precisa fazer as visitas regulares ao médico para que ocorra um ajuste do tratamento.

Olga Goulart – Bom, doutor, para finalizar, o tratamento para o glaucoma é um tratamento muito caro? Há cobertura pelos planos de saúde e é possível realizar estes procedimentos todos através do Sistema Único de Saúde?

Dr. Honassys Rocha – A trabeculoplastia seletiva a laser custa o equivalente a 6 meses de tratamento com colírios de prostaglandina, colírios que são os mais modernos para o tratamento do glaucoma. É importante a gente ter em mente que a custo-eficácia do laser é maior, visto que principalmente as pessoas idosas costumam desperdiçar o colírio, as vezes ela acha que pingou no olho e pingou fora do olho, ou então ela pinga o colírio e não mantém os olhos fechados por um tempo e isso faz com que esse colírio perca seu efeito, sem falar nos efeitos colaterais do próprio colírio. Em relação a cobertura pelos planos de saúde, eu acredito que a maioria das clínicas não investiram no laser em função do seu alto custo e da baixa remuneração por parte das operadoras. No caso da Clínica do Olho, da qual sou diretor, nós olhamos para a parcela da população principal, eu gosto, Olga, de olhar estatística porque eu estudei informática também antes de estudar medicina. E pesquisando a estatística de planos de saúde e a cobertura, observei que mais de 80% da população da Bahia não tem plano de saúde. Em relação ao SUS, é possível sim realizar o procedimento de trabeculoplastia. Até o momento existe a cobertura para a técnica antiga, no entanto os riscos da trabeculoplastia não seletiva devem ser cuidadosamente avaliados.

Olga Goulart – Ok. Conversamos com o médico doutor Honassys Rocha, especialista em oftalmologia. Doutor, muito obrigado e até a próxima oportunidade.

Dr. Honassys Rocha – Muito obrigado também Olga. E eu queria complementar dizendo que as informações científicas que corroboram esses dados que eu trouxe que muitos deles são relativamente novos para a população, estão publicados no site laserparaglaucoma.com.