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Tema: Cirurgia de Tireóide

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Viva Mais Viva Melhor – Pequena glândula situada abaixo do pomo-de-adão, na região do pescoço, a tireoide possui um papel importante no controle do metabolismo dos órgãos do corpo humano. De acordo com dados americanos, a cada 100 mil pessoas, 20 mil possuem hiper ou hipotireoidismo. Aproximadamente 70% da população entre 40 e 70 anos apresentam ou vão apresentar algum distúrbio na tireoide, podendo até levar a cirurgia de retirada total da glândula. E, para tirar as nossas dúvidas a respeito do assunto, quem conversa conosco é o doutor Gabriel Carleto, especialista em cirurgia de cabeça e pescoço.

Doutor, vamos explicar, primeiramente, o que é a tireoide e qual a sua função no nosso corpo?
Dr. Gabriel Carleto – Bem, a tireoide é uma glândula endócrina que é responsável pelo nosso metabolismo. Ela fica localizada no pescoço, um pouco abaixo do pomo-de-adão e ela é responsável por todos os metabolismos que acontecem no nosso organismo.

Viva Mais Viva Melhor – Quais são as doenças que podem atingir a glândula tireoide, doutor?
Dr. Gabriel Carleto – As doenças podem ser benignas ou malignas. As doenças podem ser ligadas a uma hiperfunção ou uma hipofunção com o hipertireoidismo ou o hipotireoidismo ou relacionado a nódulos que normalmente podem ser neoplasias malignas ou benignas.

Viva Mais Viva Melhor – Quais são os sintomas que podem indicar problemas na tireoide?
Dr. Gabriel Carleto – Normalmente as doenças na tireoide são assintomáticas. Quando as doenças da tireoide estão relacionadas com a sua função podem ter alterações que vão te levar a um hipermetabolismo como estresse, ansiedade, perda ponderal de peso, queda de cabelo, nervosismo, insônia, isso no caso do hipertireoidismo. Quando a doença se relaciona a função que diminui um pouquinho esses hormônios, você vai ter o oposto, você vai ter hipotireoidismo, você vai ter ganho de peso, obesidade, aquela vontade de não trabalhar, tudo o que leva a uma hipoatividade. Quando a doença não está relacionada a função, normalmente ela é assintomática. Quando os nódulos evoluem de tamanho e aí podem dar compressão aí sim você pode encontrar doenças nodulares que dão sintomas, mas normalmente elas são assintomáticas.

Viva Mais Viva Melhor – Existem exames que detectam alterações na tireoide?
Dr. Gabriel Carleto – Existem sim. Nós temos exames que podem ser feitos de sangue, que você vai dar o diagnóstico dessa hiper ou hipofunção que é o TSH e T4 livre, alguns T3 e T4, mas basicamente os dois. O TSH vai classificar uma hiper ou hipofunção e aí você vai medir o hormônio ativo na corrente sanguínea para definir desde o início. E o exame de ultrassonografia que hoje está cada vez mais evoluído, onde vê se existe nódulos, quantos nódulos, qual é a consistência, qual a quantidade, em que localização estão, então basicamente relacionado a função ou a formação dos nódulos.

Viva Mais Viva Melhor – Quando que é necessário operar a tireoide, doutor? Todos os nódulos na tireoide precisam ser removidos com a cirurgia?
Dr. Gabriel Carleto – Não, não. Na verdade, hoje em dia a gente só opera câncer de tireoide ou nódulos suspeitos de câncer ou ainda os nódulos benignos que causam compressão ou traqueal ou esofágica. Então a indicação mais clara hoje em dia é o câncer, não é? O câncer é a principal ligação das tireoidectomias totais. Depois dos cânceres a segunda indicação mais comum é ação suspeita de neoplasia, os nódulos suspeitos de serem cânceres, mas que a gente não tem condição de afirmar se é ou não câncer. E depois os bócios, bócios são aqueles pacientes com pescoços grandes, com nódulos aumentados que podem no futuro levar a uma neoplasia. Então são basicamente estes três as principais indicações de tireoidectomias totais.

Viva Mais Viva Melhor – É preciso alguma preparação antes da realização da cirurgia da tireoide?
Dr. Gabriel Carleto – Exames básicos, o raios-X do tórax e um eletrocardiograma do coração. A função tireoidiana é muito importante porque para a gente submeter um paciente a uma cirurgia esse paciente precisa estar eutireoidiano com os hormônios normais. Então o paciente com hipertireoidismo precisa de algumas medicações pré-cirúrgicas para melhorar essa dose de hormônio na circulação sanguínea. Existem casos em vários locais, se for um câncer fazemos o ultrassom cervical para ver se tem metástase cervical, se for um bócio fazemos tomografia cervical para ver se esse bócio está indo para o tórax, para a cavidade torácica. Então a gente faz um estadiamento para poder fazer a cirurgia com a segurança e um controle adequado do tratamento.

Viva Mais Viva Melhor – Como é feita a cirurgia da tireoide, doutor?
Dr. Gabriel Carleto – Hoje em dia a cirurgia da tireoide é feita sobre anestesia geral, nós temos hoje uma técnica que existe no mundo todo que é minimamente invasiva em que a gente localiza um nervo recorrente que é o nervo da voz, procura preservar quatro glândulas pequeninas que são os paratireoides que são responsáveis pela produção e regulação do cálcio e aí resseca essa glândula com a preservação tanto das glândulas paratireoides como do nervo recorrente. É uma cirurgia muito segura, como qualquer procedimento, pode ter complicações, mas com altas taxas de cura sendo câncer ou sendo doenças benignas.

Viva Mais Viva Melhor – Por estar localizada na garganta o paciente pode ficar sem voz após a cirurgia da tireoide?
Dr. Gabriel Carleto – A disfonia, que é justamente esta rouquidão do pós-operatório, é uma complicação que pode acontecer e ela ocorre em cerca de 2% dos pacientes. Devido a manipulação deste nervo recorrente, que é o nervo da voz, nós temos um edema no pós-operatório em que esse nervo não funciona bem e aí acontece muitas vezes quando o paciente tem tireoidite ou quando o nervo é muito fino, que há muita movimentação no nervo, um edema pós-operatório normal e esperado e o paciente evolui com alguma rouquidão, mas que normalmente melhora. Em 10 a 15 dias este paciente já se sente melhor relacionado a voz e em via de regra ele recupera completamente a voz. Algumas vezes é preciso sacrificar o nervo e aí acontece uma rouquidão de caráter definitivo, mas isso é uma exceção que acontece em pacientes com cânceres avançados e que a minoria dos pacientes tem essa complicação.

Viva Mais Viva Melhor – Após o procedimento o paciente pode sentir algum desconforto nessa região do pescoço como dor na garganta, tosse, além da alteração da voz?
Dr. Gabriel Carleto – Tem um sintoma muito comum que é a hipocalcemia. As glândulas paratireoide estão muito próximas a tireoide, muito juntinhas, coladas e elas regulam nosso cálcio. Então é muito comum o paciente no pós-operatório sentir algum grau de hipocalcemia, que isso é traduzido em formigamentos. Então o paciente é muito comum após a cirurgia apresentar formigamento perilabial em extremidades e isso significa que o cálcio baixou um pouco, que é uma coisa esperada da cirurgia. Então essa é a principal queixa que nós vemos no consultório que é o formigamento, em seguida da alteração vocal que pode ser de menor grau ou maior grau. A dor é um sintoma muito incomum, é uma cirurgia que normalmente o paciente não se queixa de dor. É preciso muito cuidado no pós-operatório para evitar os hematomas, que é a complicação mais temida na cirurgia de tireoide porque pode levar a uma insuficiência respiratória e o óbito do paciente.

Viva Mais Viva Melhor – Como é o pós-operatório da cirurgia da tireoide, doutor? Quanto tempo mais ou menos o paciente precisa ficar de repouso?
Dr. Gabriel Carleto – Normalmente nós pedimos que o paciente fique de repouso 15 dias e é um repouso realmente necessário. Pequenos volumes de sangue ou pequenos hematomas na região cervical podem levar a uma insuficiência respiratória onde o paciente não consegue respirar e isso leva ao óbito do paciente. Então é preciso que ele tenha dois cuidados principais, não faça esforços físicos, se alimente com uma boa quantidade de cálcio, o leite e derivados, para evitar uma hipocalcemia que normalmente acontece, que é fisiológico pela manipulação nas paratireoides e não faça esforço. Então o paciente que segue estes três cuidados normalmente ele tem uma boa evolução, sem muitas complicações no pós-operatório.

Viva Mais Viva Melhor – Caso a cirurgia feita seja a retirada total da glândula, é possível viver sem a tireoide? Quais os cuidados necessários para se ter uma vida normal após o procedimento?
Dr. Gabriel Carleto – Nós podemos viver sem tireoide, mas precisamos tomar o hormônio que é a tireoide T2. Então quando o paciente faz a cirurgia de tireoide e retira totalmente a glândula ele vai precisar repor este hormônio que era produzido pela tireoide. Então nós já no pós-operatório imediato, no primeiro dia após a cirurgia o paciente começa a usar a Levotiroxina para poder justamente repor esta falta hormonal advinda da retirada da tireoide. Então é possível viver bem e que ela siga direitinho a nossa orientação, se medique usando essa Levotiroxina e aí nós vamos conseguir com o passar do tempo qual é a dose adequada a cada paciente e isso a depender do peso do paciente, tamanho do paciente e do metabolismo do paciente.

Viva Mais Viva Melhor – Para finalizar, doutor, os convênios de saúde, bem como o SUS (Sistema Único de Saúde) oferecem cobertura para o tratamento cirúrgico da tireoide?
Dr. Gabriel Carleto – Oferecem sim. Nos convênios nós temos as cirurgias minimamente invasivas, são cirurgias guiadas com monitores de nervo e com pinças que cauterizam os vasos, selam os vasos com menores cicatrizes. Então cada dia que se passa nós temos maiores razões tecnológicas permitindo resultados estéticos melhores, permitindo mais segurança para o paciente e permitindo uma melhor qualidade estética da cirurgia. Já pelo SUS nós temos um tratamento adequado. Não oferecemos, infelizmente, a mesma tecnologia que dispomos nas cirurgias dos convênios. Mas se eu for fazer cirurgia de tireoide por câncer hoje em Salvador, nas cirurgias benignas nós temos um pouquinho de trabalho, uma dificuldade muito grande por causa do desinteresse do Governo e dos hospitais impraticáveis, mas é possível sim conseguir resolver as cirurgias de tireoide por câncer no SUS.

Viva Mais Viva Melhor – Ok. Conversamos com o doutor Gabriel Carleto, especialista em cirurgia de cabeça e pescoço. Doutor, muito obrigada e até a próxima.