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Mitos e Verdades sobre Reposição Hormonal

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Viva Mais Viva Melhor – Ondas de calor, irritação, redução na libido. Quando sintomas como esses começam a aparecer, geralmente entre os 40 e 50 anos, fica fácil adivinhar, é a mulher entrando na menopausa. E para controlar essas sensações desagradáveis a reposição hormonal entra em cena. Mas será que qualquer mulher pode ser submetida a esta terapia? Para responder a esta pergunta e a outras tantas na nossa série Mitos e Verdades hoje quem conversa conosco é o doutor Alan Coutinho, especialista em ginecologia e obstetrícia.

Doutor, primeiramente é correto afirmar que a reposição hormonal melhora a qualidade de vida da mulher na menopausa?
Dr. Alan Coutinho – Verdade. Os hormônios são um dos pilares fundamentais na manutenção da saúde e certamente é um dos fatores mais importantes para melhorar a qualidade de vida, pois é capaz de preservar tanto a integridade física, mental e social da mulher na menopausa. 

Viva Mais Viva Melhor – A terapia da reposição hormonal tem a finalidade de cessar o processo da menopausa e consequentemente aliviar os sintomas provocados por ela, isso é mito ou é verdade?
Dr. Alan Coutinho – Mito. A menopausa é um processo irreversível no envelhecimento da mulher. A reposição hormonal não interrompe a evolução da menopausa, pois não consegue devolver aos ovários a capacidade de produzir novamente os hormônios sexuais. Os sintomas sim podem ser aliviados, mas o envelhecimento não para. Talvez no futuro a ciência consiga descobrir uma forma de manter a produção natural dos hormônios sexuais pelos ovários. Contudo, até o momento, não sabemos como fazer isso e a melhor maneira de aliviar os sintomas é fazer a reposição hormonal, se alimentar corretamente e ter uma vida ativa.

Viva Mais Viva Melhor – A terapia de reposição hormonal deve ser iniciada logo que aparecerem os primeiros sintomas da menopausa, essa afirmativa é verdadeira ou é falsa?
Dr. Alan Coutinho – Verdade. Os sintomas da menopausa podem começar até 6 anos antes da última menstruação e a partir dos primeiros sintomas pode ser iniciada a reposição hormonal levando a maiores benefícios. Por exemplo, mulheres que iniciam reposição hormonal com estrogênio, ao apresentarem o primeiro sinal de fogacho têm um menor risco de desenvolver doenças cardiovasculares e fraturas ósseas quando comparadas com as que iniciaram tardiamente.

Viva Mais Viva Melhor – Toda mulher na menopausa precisa fazer terapia de reposição hormonal, mito ou verdade?
Dr. Alan Coutinho – Mito. Nem toda mulher precisa fazer a reposição hormonal, mas eu digo que a maioria se beneficiaria com a utilização dos hormônios. O segredo então é individualizar cada caso, pois existem as mulheres que não querem fazer e as que não podem fazer. O grupo das que não querem fazer é formado por mulheres que se sentem bem e não apresentam os sintomas da menopausa e por outras que mesmo tendo sintomas não desejam fazer a reposição hormonal, seja por medo ou por desconhecimento dos riscos e benefícios. Do outro lado, bem menor, estão as mulheres que não podem fazer a reposição hormonal por causa de doenças graves que contraindiquem a utilização dos hormônios. 

Viva Mais Viva Melhor – A reposição hormonal não tem restrições, portanto qualquer mulher pode fazê-la, verdade ou mito?
Dr. Alan Coutinho – Mito. Nem toda a mulher pode fazer reposição hormonal, mas a grande maioria pode por conta de os benefícios serem maiores do que os riscos. Contudo, mulheres com diagnóstico prévio de câncer de ovário, câncer de mama, doenças graves do fígado, pâncreas ou doenças cardíacas graves devem evitar e serem contraindicadas a realização da reposição hormonal.

Viva Mais Viva Melhor – É mito ou é verdade afirmar que a reposição hormonal engorda?
Dr. Alan Coutinho – Mito. Na natureza a vida tende ao equilíbrio, portanto, o que pode engordar é a falta ou o excesso do hormônio. A palavra hormônio tem origem grega e significa ‘pôr em movimento’, sendo que durante a menopausa a falta de hormônio sexual aí sim leva a uma das causas da obesidade que é o sedentarismo, pois, sem o hormônio, a pessoa perde o estímulo de se movimentar. Outra consequência da baixa hormonal são as perdas físicas, que alteram a aparência da mulher, tendo um efeito devastador sobre a sua autoestima, contribuindo para um retraimento e, consequentemente, a inatividade, agravando a perda dos ossos, dos músculos e promovendo o ganho do peso. No caso da reposição hormonal, feita com estrogênio em doses adequadas, não ocorre o acúmulo de gordura, pelo contrário, as mulheres que fazem reposição hormonal adequada costumam ser mais ativas, ter menos gordura acumulada, além de terem menores riscos de desenvolver o diabetes tipo II.

Viva Mais Viva Melhor – A terapia de reposição hormonal aumenta a libido, isso é mito ou é verdade?
Dr. Alan Coutinho – Verdade. A reposição hormonal é capaz de manter o desejo e o impulso sexual do homem e da mulher. Na menopausa a redução dos hormônios sexuais está associada a uma diminuição do desejo pelo parceiro, pela perda do vigor da pele, pela transformação das formas curvas e retas e pela queda na produção de feromônio que dá o cheiro característico da mulher, capaz de manter a atração no seu parceiro, mantendo a mulher atraente e desejada.

Viva Mais Viva Melhor – A reposição hormonal não pode ser feita por longos períodos, isso é verdade ou é mito?
Dr. Alan Coutinho – A duração do tratamento de reposição hormonal é um assunto controverso na literatura médica. Não existe uma regra que funciona para todas as mulheres, cada caso deve ser avaliado individualmente e o acompanhamento deve ser feito com regularidade, pois não existe uma idade máxima na qual a reposição hormonal deve ser suspensa. Na prática, a reposição hormonal, quando iniciada, deve ser mantida até a próxima revisão, onde será avaliada de forma conjunta com a paciente a necessidade de continuar ou de interromper o tratamento.

Viva Mais Viva Melhor – O tratamento via oral causa menos problemas do que aqueles feitos com adesivos e injeções, isso é verdade ou é mito?
Dr. Alan Coutinho – Mito. O tratamento feito com adesivo, gel ou implante tem uma menor quantidade de efeitos colaterais e contraindicações quando comparados com o tratamento por via oral. Um exemplo é que a terapia por via oral tem mais riscos de desenvolver trombose quando comparados com gel ou implante. O problema dos comprimidos é que são necessárias doses maiores para se conseguir resistir ao ácido do estômago e às enzimas do fígado, já que o gel e o implante as doses são menores porque o hormônio vai da pele direto para a corrente sanguínea, sem precisar passar pelo estômago ou pelo fígado.

Viva Mais Viva Melhor – É preciso tratar a menopausa pelo resto da vida, isso é verdade, doutor, ou é mito?
Dr. Alan Coutinho – Mito. Não existe uma idade máxima e nem uma idade mínima na qual a reposição hormonal deve ser suspensa. Na prática, a reposição hormonal quando indicada deve ser mantida até a próxima revisão, onde será avaliada de forma conjunta com a paciente a necessidade de continuar ou de interromper o tratamento. 

Viva Mais Viva Melhor – Depois que a terapia de reposição hormonal é interrompida a mulher envelhece mais rápido, isso é verdade ou é mito?
Dr. Alan Coutinho – Verdade. O envelhecimento é um processo de desgaste do corpo que se inicia quando nos tornamos adultos e que não sabemos o que pode ser feito para que o envelhecimento não aconteça. As causas do envelhecimento ainda não são totalmente entendidas pela ciência. Parece que somos programados geneticamente para ficarmos velhos. Uma das causas do envelhecimento são os danos ao DNA, causados por agentes, como por exemplo o cigarro, vírus, álcool, obesidade ou sedentarismo. No caso da reposição hormonal com o estrogênio e testosterona parece haver uma proteção ao DNA, diminuindo os danos e falhas no organismo. Por exemplo, mulheres que fazem a reposição hormonal têm ossos mais fortes e têm menor risco de fraturas em relação às que não fazem reposição hormonal. Contudo, com a suspensão da reposição hormonal o efeito protetor sobre a densidade óssea declina rapidamente, embora possa manter ainda algum grau de proteção contra fraturas. Atualmente, o que é mais aceito pela ciência como medidas para aumentar a longevidade de forma saudável são atitudes conjuntas, como adotar uma dieta com restrição de calorias, ricos em elementos funcionais, ter uma boa qualidade de sono, promover iniciativas para prevenção do estresse crônico, além de ser fisicamente e socialmente ativo.

Viva Mais Viva Melhor – Medicamentos para reposição hormonal custam muito caro, isso é verdade ou é mito.
Dr. Alan Coutinho – Depende... quanto custa dormir bem sem calores da menopausa? Quanto custa não quebrar um osso? Quanto custa manter a libido e o desejo no casamento? Os custos e benefícios da terapia hormonal são difíceis de serem calculados, pois, individualmente, o que pode ser caro para quem tem poucos sintomas pode não ter preço para quem apresenta sintomas intensos.

Viva Mais Viva Melhor – Existem alternativas naturais para o tratamento da reposição hormonal, isso é mito ou é verdade?
Dr. Alan Coutinho – Verdade. Produtos alternativos, a exemplo de preparação à base de plantas e ervas, contendo hormônios que vem dos vegetais, são popularmente conhecidos e estão amplamente disponíveis em lojas e farmácias, mas eu pessoalmente não recomendo o seu uso. Isso porque os estudos científicos demonstraram que a eficácia dessas alternativas naturais são iguais a uma pílula de açúcar, ou seja, não passam de placebo. O pior, muitas dessas fórmulas podem possuir diversas substâncias misturadas, o que pode tornar o problema ainda mais grave, podendo levar a efeitos tóxicos para todo o corpo.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, homens também podem fazer reposição hormonal, essa afirmativa é verdadeira ou não?
Dr. Alan Coutinho – Verdade. Com o envelhecimento, o homem pode diminuir a sua produção de testosterona e perder as características masculinas, se sentindo incapaz de conquistar, de desejar e até mesmo de competir por qualquer mulher. A reposição com o hormônio mantém os ossos fortes, ombros largos, a massa muscular e ajuda na perda de gordura abdominal. Além disso, a testosterona é responsável pela liberação do cheiro característico do macho, transmitindo, de forma instintiva, que ele é um ser saudável e apto para proteger sua mulher e seus filhos.

Viva Mais Viva Melhor – Para finalizar, doutor, é correto afirmar que a terapia de reposição hormonal eleva o risco de câncer de mama, ataque cardíaco e derrame?
Dr. Alan Coutinho – Vamos lá, mais um assunto polêmico. Vamos por parte, em relação ao coração, a reposição com estrogênio iniciada antes dos 60 anos de idade pode desempenhar um papel protetor contra a doença cardíaca, levando a um menor risco de ataque cardíaco e derrame. Porém, quando iniciada após os 60 anos de idade, pode sim aumentar o risco de doenças cardiovasculares.

Em relação ao câncer de mama existem muitas controvérsias e só o tempo realmente irá mostrar a verdade, mas direi minha opinião pessoal sobre o assunto. Eu acredito que a reposição hormonal com hormônio em doses fisiológicas não leva ao dano ao núcleo do DNA das células e, consequentemente, não seja a causa do câncer. E, atualmente, o maior estudo que já foi realizado no mundo sobre a reposição hormonal em mulheres, o WHI (Women's Health Initiative) demonstrou que o risco de desenvolver o câncer de mama foi o seguinte: um grupo com 10 mil mulheres não fez reposição hormonal, nesse grupo de 10 mil mulheres, 30 desenvolveram o câncer de mama, então essa foi a incidência. O segundo grupo, em que 10 mil mulheres fizeram reposição hormonal com estrogênio, 26 tiveram câncer de mama, ou seja, 4 casos a menos quando comparados com as que não fizeram reposição hormonal. Mas, já no terceiro grupo, com 10 mil mulheres que fizeram reposição hormonal com estrogênio e mais um tipo de progestínico, 38 tiveram câncer de mama, ou seja, um aumento de 8 casos em 10 mil mulheres, um aumento pequeno, mas sim um aumento. Portanto, o maior estudo científico já realizado até hoje mostrou que não houve nenhum aumento no risco de desenvolver câncer de mama quando se utiliza apenas estrogênio pelo período de até 10 anos. Contudo, verdades e estudos com uma duração maior deverão ser realizados para avaliar o risco em períodos mais longos. 

Viva Mais Viva Melhor – Ok. Conversamos com o doutor Alan Coutinho, especialista em ginecologia e obstetrícia. Doutor, muito obrigada e até a próxima.