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Mitos e Verdades - Endoscopia Digestiva Alta

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Viva Mais Viva Melhor – Muitas pessoas ainda têm pavor de fazer a endoscopia digestiva alta devido a alguns mitos que cercam o exame. Porém, este é um dos métodos mais simples e seguros para detecção de doenças do aparelho digestivo. Apesar de parecer doloroso e demorado, o exame dura em torno de 10 a 20 minutos e o paciente não acompanha o procedimento acordado. Para falar um pouco melhor sobre este assunto na nossa série Mitos e Verdades, quem conversa com a gente é o médico Ramiro Mascarenhas, especialista em endoscopia digestiva.

Doutor, é correto afirmar que o exame de endoscopia digestiva alta dói e que é muito demorado?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Não, é incorreto. A endoscopia digestiva alta, atualmente, em quase 100% dos casos é realizada sob sedação, o paciente não fica acordado e não sente nada. Em relação ao tempo, a endoscopia digestiva alta é rápida, é um procedimento rápido, e dura no máximo 10 a 20 minutos.

Viva Mais Viva Melhor – É verdade que é possível detectar e tratar doenças durante o procedimento?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso é verdade. A endoscopia digestiva alta é diagnóstica e terapêutica e, ao longo da nossa entrevista, nós poderemos dar maiores exemplos sobre isso.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, é mito ou é verdade dizer que a idade mínima para se realizar este exame de endoscopia digestiva alta é de 18 anos?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso é um mito. A endoscopia digestiva alta pode ser realizada em qualquer idade. Habitualmente, se realiza a partir dos 3 anos, mas, se houver necessidade numa idade anterior a 3 anos, pode ser realizada, tem aparelhos finos e pode ser realizada. Eu mesmo já realizei endoscopia em um paciente com um dia de vida, um paciente que apresentou um quadro de hemorragia digestiva, isso não é habitual, mas é possível realizar o exame em qualquer idade.

Viva Mais Viva Melhor – A recuperação é rápida e o paciente pode voltar a se alimentar logo após o exame, isso é mito ou é verdade?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso é verdade. O paciente, geralmente, depois de 10 a 20 minutos da endoscopia diagnóstica o paciente pode se alimentar normalmente, inclusive nos próprios serviços de endoscopia o paciente já recebe um lanche para evitar a hipoglicemia.

Viva Mais Viva Melhor – Bom, de tudo que nós escutamos dizem que não dá para respirar durante o exame, isso é mito ou é verdade?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso é mito. O paciente respira normalmente. É feita uma sedação, mas na maioria das vezes o paciente não precisa ser entubado, não precisa ir para um aparelho de respiração, é uma sedação e o paciente fica respirando normalmente. É como se o paciente estivesse dormindo, você faz o exame como se o paciente estivesse dormindo, sem alterar a respiração.

Viva Mais Viva Melhor – É verdade que o paciente não deve dirigir ou mesmo trabalhar após a realização do exame de endoscopia digestiva alta.

Dr. Ramiro Mascarenhas – Do ponto de vista legal, este paciente não deve operar máquina nem dirigir pelo período de 12 horas. Mas trabalhar depende do trabalho, se for um trabalho administrativo, que não envolva lidar com máquina pesada ou muita atenção, o paciente pode trabalhar.

Viva Mais Viva Melhor – O médico pode usar a endoscopia para obter biópsia, ou seja, retirada de pequenos fragmentos de tecido, que vão servir para distinguir entre as lesões se são benignas ou malignas, isso é mito ou é verdade?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso é verdade. Inclusive os aparelhos de endoscopia permitem a passagem de acessórios (pinça e cateter) para a gente colher fragmentos e esse fragmento é encaminhado para o médico patologista para dar o diagnóstico, como você falou, diferenciar se uma lesão é benigna ou maligna e se tomar conduta, o tratamento vai ser endoscópico ou cirúrgico.

Viva Mais Viva Melhor – No caso de investigação de anemia, a endoscopia digestiva tem um papel importante, isso é mito ou é verdade?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso é verdade. Uma das grandes indicações da endoscopia digestiva alta é nos casos de anemia. Você pode ter uma úlcera que sangrou como causa de anemia, você pode ter um tumor gástrico, um tumor de esôfago, um tumor de duodeno, e esse indivíduo tem anemia devido a estas alterações e a endoscopia digestiva pode detectar.

Viva Mais Viva Melhor – É verdade que a endoscopia digestiva alta também pode ser indicada na investigação de sintomas como dor abdominal, náuseas e vômitos?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Sim, verdade e esse é o nosso dia-a-dia. Principalmente a dor abdominal, náusea e vômito persistente e se o paciente tiver acima de 40 anos é mandatório você fazer endoscopia porque você pode diagnosticar uma fase inicial de um tumor que ainda é possível um tratamento cirúrgico e o indivíduo seja curado, então, nestes casos, sim.

Viva Mais Viva Melhor – Hemorragias digestivas altas, sangramentos e atividade contraindicam o exame de endoscopia digestiva alta, isso é mito ou é verdade?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso é um grande mito. Na verdade, a endoscopia digestiva alta ganhou um grande prestígio justamente nos casos de hemorragia digestiva alta. Hoje praticamente você não faz tratamento cirúrgico na fase aguda da hemorragia digestiva alta. A endoscopia hoje permite você tratar as lesões e evitar que o paciente seja submetido a um tratamento cirúrgico. Os grandes exemplos é o sangramento de varizes de esôfago. Varizes de esôfago é uma condição que o indivíduo adquire após uma doença de fígado, o indivíduo tem uma cirrose hepática, uma esquistossomose hepatoesplênica, desenvolve varizes no esôfago e metade destes pacientes ao longo da sua vida podem apresentar sangramento, vomitar sangue que a gente chama de hematêmese ou eliminar fezes enegrecidas com odor fétido que a gente chama de melena. Então nestes casos nós fazemos a endoscopia e você consegue detectar a lesão e, no mesmo ato endoscópico, a gente consegue injetar uma substância ou então fazer uma ligadura deste sangramento varicoso e parar a hemorragia. A mesma coisa com a úlcera péptica, o indivíduo quando desenvolve úlcera o paciente começa a sangrar e você, ao fazer o diagnóstico, pode fazer o tratamento desta úlcera e evitar o tratamento cirúrgico que antigamente, antes do tratamento endoscópico, os pacientes eram encaminhados para o tratamento cirúrgico.

Viva Mais Viva Melhor – Quer dizer então que a endoscopia digestiva alta é eficaz no tratamento até de cânceres gástricos em fase inicial e outras doenças gastrointestinais, e isso não é mito?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso não é mito, é verdade. Por isso que a gente fala que pacientes acima de 40 anos, que tiverem sintomas persistentes de dor abdominal, náusea, vômito, falta de apetite, este indivíduo deve fazer porque, se a lesão estiver restrita à mucosa e menor do que 2,0 cm, pode ser feito o tratamento endoscópico curativo e evitar que o indivíduo sofra uma gastrectomia, que é você tirar uma parte do estômago e isso vai comprometer a qualidade de vida deste paciente.

Viva Mais Viva Melhor – Se o paciente não estiver de jejum no dia do exame não vai poder realizar a endoscopia digestiva alta, isso é mito ou é verdade?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso é verdade. A gente orienta 8 horas de jejum e na véspera do exame a gente pede para o indivíduo fazer uma refeição leve. Já teve casos de pacientes dizerem: “não, doutor, vou ficar em jejum então vou comer uma feijoada”. Não, porque alimentos ricos em gordura como feijoada e moqueca eles demoram mais tempo para serem digeridos. Então a gente orienta para o paciente fazer uma refeição leve, como uma sopa, frutas, verduras para fazer o exame no outro dia.

Viva Mais Viva Melhor – Se o paciente não estiver acompanhado no dia deste exame ele não pode realizar a endoscopia digestiva alta, isso é verdade ou é mito?

Dr. Ramiro Mascarenhas – Isso é verdade. Porque como eu já falei, a maioria dos serviços hoje de endoscopia nós fazemos uma sedação com a presença de um anestesista e essa sedação é uma sedação profunda e induz ao sono e o paciente não pode sair sozinho porque ele pode ter uma sonolência, ele pode cair, não pode dirigir, então é exigido um acompanhante por causa disso.

Viva Mais Viva Melhor – É verdade que o risco de complicações anestésicas e do próprio procedimento é muito baixo, doutor?

Dr. Ramiro Mascarenhas – É baixíssimo. Hoje a endoscopia digestiva alta é muito segura, um caso a cada 10 mil e, na maioria das vezes, a endoscopia que é feita no dia-a-dia (endoscopia diagnóstica) é de baixa complicação e o paciente pode ficar despreocupado porque é muito difícil ocorrer uma complicação.

Viva Mais Viva Melhor – Bom, mito ou verdade dizer que é muito importante que o paciente reconheça os sinais precocemente de eventuais complicações após o exame, se apresentar febre, dificuldade de engolir, vômitos ou fezes enegrecidas? 

Dr. Ramiro Mascarenhas – Sim, isso é importante. A febre que ocorre após a endoscopia, geralmente quando você faz uma biópsia, a gente chama de bacteremia transitória, não significa infecção. Isso é raro acontecer, um a cada mil casos você pode ter um calafrio, uma febre, mas isso regride espontaneamente ou então você tomando algum analgésico como 1g de dipirona resolve. Isso não significa infecção. Agora, se o indivíduo realmente tiver dificuldade de engolir, é muito difícil, os aparelhos que nós usamos hoje são aparelhos muito finos, aparelhos pediátricos, a gente usa para fazer a endoscopia do adulto e a gente usa aparelhos pediátricos porque são mais confortáveis. Então é muito difícil você ter hoje algum trauma na garganta ou no esôfago, mas pode ocorrer após algum procedimento terapêutico. Por exemplo, um paciente que fez um tratamento endoscópico pode ficar com dificuldade para engolir e isso, inclusive, é informado ao paciente. Ou então fezes enegrecidas, por exemplo, se o paciente fez uma polipectomia, o que é isso? É a retirada de um pólipo. O pólipo é um crescimento anormal da mucosa, como se fosse uma verruga que acontece na pele da gente. Então este crescimento anormal da mucosa quando nós detectamos isso a gente faz esse procedimento chamado de polipectomia e que pode sangrar posteriormente, ficar um sangramento ou um babamento de sangue ou porejamento e ele é traduzido por fezes enegrecidas, como eu falei. Então nesse caso o paciente deve informar o médico e procurar um serviço de emergência porque, na maioria das vezes, estes sangramentos são autolimitados, mas é bom que ele procure um hospital porque se for um sangramento que não pare espontaneamente o médico tem condição de, pela própria endoscopia, colocar um clip para esta hemorragia. É muito raro o indivíduo ser submetido a um procedimento cirúrgico pós-endoscopia. Pode acontecer perfuração após você fazer uma polipectomia você pode ter uma perfuração de colo, que é rara, mas pode acontecer. Aí o paciente pode apresentar dor abdominal após uma colonoscopia ou endoscopia ele tem que realmente procurar um serviço de emergência para ser avaliado, mas isso é muito raro.

Viva Mais Viva Melhor – Doutor, existe também a cápsula endoscópica. Para a gente finalizar, eu queria que você falasse um pouquinho sobre ela e se ela pode substituir uma endoscopia digestiva alta dentro das condições que nós acabamos de falar sobre.

Dr. Ramiro Mascarenhas – A cápsula endoscópica hoje é utilizada mais para as lesões do intestino delgado. Para a endoscopia digestiva alta, o esôfago, estômago e duodeno ela não está indicada. Nos casos de esôfago tem até serviços que utilizam, mais para você identificar varizes e o indivíduo não ficar fazendo endoscopia só para ver varizes, mas é difícil porque a cápsula passa muito rápido no esôfago. A verdade é que essa cápsula faz 57 mil fotos durante um período de 8 horas, mas a passagem no esôfago é muito rápida. E ela infelizmente ainda é muito cara, um exame de cápsula endoscópica hoje fica em torno de 4 mil reais enquanto a endoscopia fica em torno de 400 reais. Em relação ao custo-benefício não está indicado. E mesmo porquê a cápsula só faz o diagnóstico, se você precisar fazer uma biópsia ou uma polipectomia você vai ter que fazer uma endoscopia convencional.

Então hoje em dia a cápsula endoscópica é utilizada mais para lesões do intestino delgado, porque é o local onde a endoscopia é de difícil acesso e é um exame mais demorado. Então nos casos de lesões no intestino delgado nós indicamos a cápsula, mas não para substituir a endoscopia digestiva alta.

Viva Mais Viva Melhor – Ok. Conversamos com o médico Ramiro Mascarenhas, especialista em endoscopia digestiva. Doutor, muito obrigada e até a próxima.