NOSSAS ENTREVISTAS

Mitos e Verdades - Câncer de Fígado

 (071) 40... Ver mais >

Olga Goulart – Dando sequência a nossa série Mitos e Verdades, hoje nós vamos conversar com o médico oncologista Dr. Bruno Protásio. Ele vai esclarecer dúvidas sobre o câncer no fígado.

Doutor, é mito ou verdade que o fígado é prejudicado por todos os exageros que nós cometemos ao longo da nossa vida?

Dr. Bruno Protásio – É verdade. O fígado é um órgão vital no nosso organismo e ele tem várias funções e com certeza uma das principais funções dele é de ser um grande metabolizador das toxinas, das impurezas que circulam no nosso sangue. Ou seja, cabe ao fígado a tarefa de participar de grande parte das reações químicas do nosso corpo e muitas dessas reações são verdadeiras reações de desintoxicação. Então por exemplo, toda a vez que a gente se excede com alta ingestão de toxinas, em situações de alta ingestão de bebida alcóolica, por exemplo, nós consequentemente estamos levando mais trabalho ao fígado nessa tarefa de desintoxicar.

Olga Goulart – Ok. É mito ou é verdade que apenas os tumores malignos primários, isso é aqueles em que o foco inicial da doença ocorre no próprio fígado são considerados câncer de fígado?

Dr. Bruno Protásio – Sim, é verdade. Uma coisa importante que precisa ficar clara é que tem uma grande diferença entre um câncer de fígado e um câncer metastático para o fígado. O termo metastático é um termo médico que se refere a uma doença disseminada, espalhada, ou seja, aquele câncer que sai de um órgão inicial e foi para outro. Então nós só podemos chamar de câncer de fígado aquele câncer que se iniciou através de uma célula no fígado no começo. Para fazer essa diferenciação entre primária do fígado e metastático para o fígado, existem várias ferramentas que nós médicos dispomos. Isso vai desde a história clínica até em casos mais avançados uma avaliação de um pedaço do tumor, ou seja, de uma biópsia, mas isso tem que ser visto caso a caso.

Olga Goulart – O fígado é o principal lugar para disseminação de tumores, isso é mito, doutor, ou é verdade? 

Dr. Bruno Protásio – A resposta aqui depende, não dá para ser categórico em relação a mito ou verdade, porque cada câncer tem um padrão de disseminação específico, cada câncer costuma preferencialmente se disseminar para órgãos específicos. Por exemplo, o câncer de próstata costuma ir para ossos quando ocorre metastático, o câncer de mama costuma ir para osso, para pulmão, para fígado. O que a gente pode dizer é que sem dúvida o fígado é um lugar muito comum de disseminação de vários tipos de câncer, sem dúvida ele está entre os principais.

Olga Goulart – Ok. E é verdade, doutor, dizer que pessoas com hepatite têm maior chance de desenvolver o câncer de fígado?

Dr. Bruno Protásio – Sim, isso é verdade. Mais uma vez, hepatite também é um termo médico e hepatite se refere a inflamação do fígado. A gente diz que pode levar hepatite, ou seja, pode inflamar o fígado tudo aquilo que leva agressão das células hepáticas, comumente isso ocorre com as hepatites virais, os vírus da hepatite B e C, mas tem outros agentes também apresentando hepatites provocados pela ingestão excessiva e crônica de bebida alcóolica. De uma maneira geral, todas as situações que levam a agressão do fígado, elas se predispõem a um risco aumentado de desenvolver câncer de fígado. Um dado interessante é que cerca de 80% dos cânceres primários do fígado têm relação com as hepatites virais crônicas, as hepatites B e C.

Olga Goulart – E eu queria saber também se é mito ou verdade afirmar que pessoas que não consomem bebidas alcóolicas estão "imunes" ao câncer do fígado?

Dr. Bruno Protásio – Bom, isso é mito. Como a gente disse lá atrás, existem outros agressores ao fígado além do álcool. Os mais conhecidos são os vírus que provocam hepatite B e C crônica.

Olga Goulart – Aquele fungo, doutor, conhecido popularmente como bolor é um fator de risco para o câncer de fígado, é verdade ou é mentira isso?

Dr. Bruno Protásio – Isso é verdade. Então bolor é um termo de uso popular que se refere a contaminação de algum produto por um fungo, geralmente um fungo filamentoso e a gente sabe que existe uma associação entre uma substância tóxica produzida por algumas espécies de fungos, que a substância a gente chama de aflatoxina que ela pode aumentar o risco de câncer de fígado. Essa toxina pode estar presente em alguns alimentos mal conservados, por exemplo amendoim, milho, soja, mas é bom lembrar que essa é uma causa rara de câncer de fígado, nem de longe se compara com o efeito provocado pelos vírus e pelo álcool.

Olga Goulart – Certo. E é verdade, doutor, que nos estágios iniciais o câncer de fígado primário costuma não apresentar sintomas?

Dr. Bruno Protásio – Isso é verdade. Então quando a doença se apresenta de uma forma muito inicial e restrita ao fígado, por exemplo assume a forma de um nódulo hepático isolado, isso em geral não provoca sintomas.

Olga Goulart – Ok. É mito ou é verdade que pessoas pertencentes aos grupos de risco para o câncer de fígado devem realizar os exames periódicos de imagem e de marcadores tumorais para detectar a presença de lesões precocemente?

Dr. Bruno Protásio – Bom, isso é verdade, mas isso deve ser discutido caso a caso com o médico clínico ou mesmo com o hepatologista. Por exemplo, pacientes que sabidamente são portadores de doença hepática avançada, que a gente chama de cirrose, eles devem ser acompanhados de perto por um médico hepatologista, e esses pacientes eles têm um risco muito maior de ter câncer de fígado quando comparados com a população geral e esses pacientes ,diferente da população geral, se beneficiam de exames periódicos de imagem, por exemplo ultrassom de abdome, tomografia de abdome e de exame de sangue que a gente chama de marcador tumoral cujo o nome alfa-fetoproteína. Mas reforçando, isso realmente deve ser discutido caso a caso com o médico assistente, não se aplica a população geral, só em casos particulares.

Olga Goulart – Evitar o excesso de álcool e as infecções pelo vírus da hepatite B e C, são as melhores formas para prevenção de um câncer hepático, isso é mito ou é verdade?

Dr. Bruno Protásio – Isso é verdade. Esses são os principais agressores, os que estão mais associados ao risco de desenvolver o câncer de fígado. E como curiosidade, para o vírus da hepatite B já tem há bastante tempo uma vacina, que inclusive faz parte do calendário vacinal do Ministério da Saúde que é aplicado em crianças desde o nascimento. Outros meios importantes de prevenção para esses vírus são ficar atento a transcmissão da mãe para o filho, quando a mãe sabidamente é portadora do vírus B, ou seja, evitar a transmissão vertical e para os adultos é o uso regular de preservativos, porque esses vírus tem transmissão sexual também.

Olga Goulart – E é verdade, doutor, que o excesso de medicamentos hepatotóxicos podem causar o câncer de fígado?

Dr. Bruno Protásio – O que a gente pode dizer é o seguinte, que tudo aquilo que provoca a agressão crônica no fígado, pode predispor a um risco aumentado de câncer de fígado, especialmente nos casos de maior agressão que geram cirrose. Então se um medicamento tiver potencial de provocar danos crônicos no fígado a ponto de te levar a uma cirrose, isso é verdade.

Olga Goulart – Muitas pessoas acreditam estarem usando esses protetores hepáticos que são vendidos livremente no mercado como sendo medicamentos capazes de proteger o fígado, isso é um mito ou é verdade?

Dr. Bruno Protásio – A princípio isso é um mito, porque até o presente momento não tem nenhuma medicação recomendada para o uso para a população geral com o objetivo de reduzir o câncer de fígado. Existem muitos estudos iniciais e que ainda não são conclusivos tentando relacionar certos tipos de dieta e certos tipos de suplementação alimentar, por exemplo com vitaminas, com potencial de redução do câncer de fígado, mas isso ainda precisa ser estudado e ser mais conclusivo, os estudos não são conclusivos em relação a isso. Até agora é importantíssimo ter bastante cuidado com esses usos não recomendados de drogas.

Olga Goulart – Doutor, é muito comum também as pessoas relacionarem uma pele amarelada como sendo um dos sinais de problema no fígado, inclusive do câncer, isso é mito ou é verdade?

Dr. Bruno Protásio – É verdade. A pele amarelada, especialmente quando associada a cor amarelada da parte branca do olho que é a esclera, ela pode apresentar uma situação de represamento de bile e isso consequentemente ser um problema hepático, então quando isso acontece isso requer uma avaliação médica.

Olga Goulart – Ok. E o uso de esteroides causam câncer no fígado, isso é mito ou é verdade?

Dr. Bruno Protásio – Aqueles esteroides que são os anabolizantes utilizadas de maneira inadequada por jovens e adultos em academias, eles são drogas que tem metabolização hepática do fígado e eles podem provocar e têm potencial de provocar lesão a célula do fígado. Então tudo aquilo que pode provocar dano a célula do fígado pode aumentar o risco de câncer de fígado.

Olga Goulart – E o fígado se regenera facilmente, doutor, isso é correto da gente afirmar, inclusive no caso de câncer?

Dr. Bruno Protásio – É verdade. O fígado é um dos órgãos que mais se regeneram no corpo. Em algumas situações isso gera até problemas para a gente. Se o paciente tem uma agressão crônica sustentada, como a gente discutiu lá atrás em relação aos vírus de hepatite B, C e ingesta de álcool, nesses casos a regeneração pode se dar de forma errática, ou seja, gerar nódulos de células no fígado que ficam isoladas por lesões de cicatrizes, de fibrose, e isso leva a um quadro de cirrose, que a gente já viu que a cirrose pode aumentar a chance de câncer de fígado.

Olga Goulart – Ok. Doutor Bruno, muito obrigada pelas informações, por esclarecer os mitos e verdades sobre o câncer de fígado e até a próxima dica aqui no Viva Mais Viva Melhor.