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Mitos e Verdades - Câncer de endométrio

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Olga Goulart – O câncer endometrial acomete somente as mulheres. Ele se inicia na mucosa que reveste a parede interna do útero que é o endométrio. É um dos tumores ginecológicos mais frequentes acima dos 50 anos e seu sintoma principal é sangramento vaginal após a menopausa. Para responder as dúvidas sobre o tema, na nossa série Mitos e Verdades, quem conversa conosco hoje é o cirurgião oncológico doutor Adson Neves.

Doutor, é certo afirmar que sangramentos vaginais após a menopausa devem ser sempre investigados?

Dr. Adson Neves – Olga, todo e qualquer sintoma deverá ser sempre investigado, inicialmente com a consulta médica, um bom exame ginecológico, pois não é esperado um sangramento vaginal após a menopausa. Depois desta consulta o médico formulará a suspeita clínica e iniciará a investigação, como por exemplo, utilizando exames de imagem e utilizando também exames laboratoriais.

Olga Goulart – O câncer de endométrio atinge somente mulheres com mais de 50 anos, essa afirmativa é verdadeira ou falsa?

Dr. Adson Neves – É falsa. 80% das pacientes com câncer de endométrio têm mais de 50 anos de idade, mas 5% têm menos de 40 anos. Apesar de encontrarmos esta doença na grande maioria das pacientes na sexta e sétima década de vida, precisamos ficar atentos também para este grupo de pacientes mais jovens.

Olga Goulart – Pólipo endometrial é um tipo de câncer, isso é verdadeiro ou é falso?

Dr. Adson Neves – É falso. Mas precisamos ficar muito atentos porque o pólipo endometrial é uma projeção da mucosa do tecido que existe no interior do útero chamado de endométrio. Acomete aproximadamente 10% da população feminina, principalmente a partir dos 40 anos. A ultrassonografia é capaz de visualizar o pólipo, por vezes ele refere ao espessamento do endométrio. O procedimento mais seguro para fazer o diagnóstico de certeza da presença e do tipo de pólipo é a vídeo-histeroscopia. A vídeo-histeroscopia é um exame endoscópico que introduz uma fina cânula óptica através do orifício do colo de útero, proporcionando uma visão completa da cavidade uterina, ou seja, do endométrio. Este procedimento abre a possibilidade de realizar biópsia e até mesmo uma retirada completa do pólipo para sua investigação. O pólipo endometrial não é maligno na grande maioria dos casos. A taxa de malignização de um pólipo endometrial gira em torno de 1%, sendo ainda um processo lento e que passa por diversas fases antes de chegar ao câncer.

Olga Goulart – É verdade, doutor, que a obesidade aumenta a chance de ter um câncer endometrial ou é um mito?

Dr. Adson Neves – É verdade. A obesidade está estritamente ligada a incidência de câncer de endométrio. O câncer de endométrio pode surgir a partir de uma alteração hormonal no organismo. Estrogênio, o hormônio feminino relacionado ao desenvolvimento das características femininas, estimula o crescimento do endométrio, enquanto o outro hormônio, chamado de progesterona, atua de forma antagonista, ou seja, se contrapondo a este estímulo estrogênico. Quando somente o estrogênio está muito elevado, há um maior risco de crescimento anormal do endométrio e, consequentemente, de desenvolvimento do câncer. O sobrepeso pode ser um dos fatores responsáveis por esta alteração hormonal. No organismo da mulher obesa há uma maior produção de estrogênio e uma menor produção de progesterona, mesmo na menopausa. Essa ação torna, portanto, a obesidade o principal fator de risco da incidência dos tumores de endométrio.

Olga Goulart – Não ter filhos ou engravidar tarde aumenta o risco de câncer de endométrio, essa afirmativa é mito ou é verdade?

Dr. Adson Neves – Olga, nós não podemos esquecer que a função do endométrio é acolher e nutrir o embrião nos estágios iniciais da gravidez. O estrogênio é responsável pela reconstrução e crescimento do endométrio após a menstruação, a progesterona prepara o interior do útero para receber o óvulo recém fecundado e, não havendo a fecundação, os preparativos se desfazem, ou seja, reinicia-se de novo o ciclo menstrual. A persistência da ação estrogênica isolada por longo tempo pode surgir alterações patológicas como pólipos, hiperplasias e até mesmo câncer. Portanto, uma mulher que não teve filhos ou engravidou mais tarde na sua vida reprodutiva, permaneceu mais exposta ao estrogênio e isso é uma configuração muito importante e um fator muito importante para o desenvolvimento do câncer de endométrio.

Olga Goulart – Doutor, a mulher que já teve câncer de mama tem mais chances de desenvolver o câncer de endométrio, isso é mito ou é verdade?

Dr. Adson Neves – É mito, Olga. Mas há um pequeno grupo de mulheres com câncer de mama que precisam complementar seu tratamento após a cirurgia ou após a cirurgia, rádio e quimioterapia, com a medicação chamada de Tamoxifeno durante alguns anos após estes tratamentos. Esta paciente tem um risco aumentado por volta de 6 a 11% de desenvolver um novo tumor, um tumor no endométrio, porque esta medicação chamada de tamoxifeno costuma estimular o endométrio a crescer e este estímulo constante pode promover o aparecimento deste câncer.

Olga Goulart – A endometriose é fator de risco para o câncer de endométrio, isso é mito ou é verdade?

Dr. Adson Neves – É mito, Olga. Apesar de poder atingir vários órgãos distintos e se disseminar localmente ou até mesmo à distância, a endometriose é uma doença benigna e não está relacionada com o câncer de endométrio. Até o momento nenhum estudo conseguiu mostrar relação importante entre a endometriose e o câncer no endométrio.

Olga Goulart – O uso contínuo do anticoncepcional, doutor, protege contra o câncer endometrial, isso é mito ou é verdade?

Dr. Adson Neves – Há algumas décadas o uso do anticoncepcional à base apenas de estrogênio era um fator de risco, mas combinado com progestínicos, uma outra medicação à base de progesterona, esse risco realmente diminui. O uso deste anticoncepcional combinado reduz o risco de câncer de endométrio, o risco é menor de mulheres que tomam a pílula durante um longo tempo e essa proteção continua pelo menos por 10 anos após a mulher parar de fazer o uso deste anticoncepcional. No entanto, é importante avaliar todos os riscos e benefícios na escolha de um método contraceptivo. O risco do câncer de endométrio, na verdade, é apenas um fator a ser considerado.

Olga Goulart – Doutor, é verdade que tomar café reduz o risco de câncer endometrial ou isso é mito?

Dr. Adson Neves – Olga, saiu recentemente em uma revista de publicação nacional de grande tiragem uma pesquisa da Harvard que avaliaram 19 estudos publicados envolvendo quase 40 mil mulheres estudando realmente o efeito do café como um fator protetor para o câncer de endométrio. Bom, os resultados mostraram que tomar café regularmente reduz o risco de desenvolvimento do tumor, as participantes que ingeriram 2 a 3 xícaras de bebida por dia tinham o risco de 7% menor e aquelas com mais de 4 xícaras 22% do desenvolvimento do câncer de endométrio. No entanto, este efeito protetor não foi observado em todos os subgrupos destas pacientes. Ele foi observado mais naquelas pacientes que já tinham um risco extremamente importante para o desenvolvimento do câncer de endométrio que era a obesidade. Então é necessário aguardarmos mais outros estudos para poder validar esta afirmativa que o café é um fator protetor para o câncer de endométrio.

Olga Goulart – Doutor, é verdade ou é mito que não existe um câncer específico para o diagnóstico do câncer de endométrio?

Dr. Adson Neves – É verdade, não é mito, é verdade. Ao contrário do que acontece com o câncer de colo de útero que nós temos o Papanicolau, que é um preventivo que é extremamente importante e muda de forma brutal a evolução da doença, fazendo com que as pacientes tenham um diagnóstico mais precoce, infelizmente para o endométrio não. A paciente que tem câncer de endométrio que, por exemplo, realiza o Papanicolau, ela tem uma chance muito pequena de ser diagnosticada por este método, chega a 10 ou 15%. O ultrassom também não é um bom método para se fazer o diagnóstico. O ultrassom é um método de triagem interessante, porque as pacientes que têm câncer de endométrio, a maioria tem espessamento endometrial que é visualizado no ultrassom, mas no momento nós infelizmente não temos nenhum método específico para realizar o diagnóstico de câncer de endométrio.

Olga Goulart – É verdade que dores durante a relação sexual pode ser um dos sintomas do câncer de endométrio, ou isso é mito? 

Dr. Adson Neves – Olga, não é comum, dispareunia (dor durante o ato sexual) não é uma queixa comum nas pacientes que são portadoras do câncer de endométrio. O que mais chama a atenção é o sangramento vaginal. A dor diante de uma paciente com câncer de endométrio pode acontecer, mas sempre que nós temos essa situação no nosso consultório a gente tem que ficar muito atento porque pode ser um sinal de que esta doença está localmente avançada. No momento em que a doença se inicia, nas fases mais iniciais da doença, a dispareunia (dor durante o ato sexual) não é um sintoma comum das pacientes que recebemos nos nossos consultórios.

Olga Goulart – A ultrassonografia transvaginal é suficiente para dar um diagnóstico do câncer de endométrio, isso é verdade ou é mito?

Dr. Adson Neves – É mito. O ultrassom transvaginal, principalmente o transvaginal, é um excelente método de triagem. Habitualmente paciente com câncer de endométrio tem, na história clínica, o sangramento vaginal como o mais importante da sua queixa, diante desta queixa do sangramento vaginal o ultrassom é imperativo para avaliar e medir o espessamento e quanto tem de espessura o endométrio, porque quando este endométrio está espessado é muito importante que se faça um outro método diagnóstico que é a histeroscopia para conseguir visualizar a cavidade endometrial e eventualmente realizar a biópsia, retirada do fragmento para uma análise de anatomia patológica posterior.

Olga Goulart – O principal tratamento para o câncer de endométrio é a cirurgia, isso é mito ou é verdade, doutor?

Dr. Adson Neves – É verdade. Cerca de 70% das vezes o câncer de endométrio encontra-se confinado ao útero, ou seja, ele não se espalhou, ele não deu metástase. Este é o melhor cenário para se construir uma estratégia de tratamento adequada para este paciente. Neste contexto, a forma mais efetiva para controlar a doença e atingir a cura, sem sombra de dúvida, é cirurgia oncológica adequada. A quimioterapia tem um papel secundário a cirurgia, a radioterapia oferece um melhor controle local, mas todos num contexto adjuvante, ou seja, realizado após a cirurgia. Sem sombra de dúvida Olga, a cirurgia tem um papel fundamental no controle da doença e na cura destes pacientes.

Olga Goulart – A retirada do útero para o tratamento do câncer afeta a vida sexual da mulher, isso é mito ou é verdade?

Dr. Adson Neves – Olga, o útero exerce no universo feminino, além de suas funções biológicas, papeis relacionados a sexualidade e a feminilidade. Portanto, é muito importante não banalizar a cirurgia, ou seja, a paciente deve apresentar alguma doença que represente risco para sua saúde para que seja indicado o procedimento cirúrgico, para ser indicada a retirada do útero. De uma forma geral, a histerectomia tem resultados positivos e com efeitos que beneficiam a vida da mulher que sofre de alguma patologia e que tem na intervenção a esperança de alcançar novamente uma vida com qualidade.

Olga Goulart – Conversamos com cirurgião oncológico doutor Adson Neves. Doutor, muito obrigada e até a próxima.